O governo brasileiro está articulando uma coalizão de países em desenvolvimento para exigir voz ativa na regulamentação global da inteligência artificial. A iniciativa do Ministério das Relações Exteriores quer impedir que Estados Unidos, China e a União Europeia, bloco político e econômico com 27 nações europeias, decidam sozinhos as regras do jogo sobre a tecnologia mais valiosa da década.
A estratégia brasileira espelha a linha de ação adotada na presidência do G20, grupo que reúne as 20 maiores economias do planeta. O objetivo é claro: criar uma frente comum de nações em desenvolvimento para negociar de igual para igual com as potências estabelecidas. Hoje, a corrida tecnológica divide o mundo de forma desigual. Enquanto os norte-americanos disputam o controle da fabricação de semicondutores, os componentes microscópicos essenciais para rodar a tecnologia, os europeus se concentram em criar leis de proteção de dados.
A preocupação do Brasil é que as regras futuras sejam desenhadas apenas por quem já detém a tecnologia e os bilhões de dólares em investimentos em pesquisa. O mercado global de inteligência artificial deve movimentar mais de 1,8 trilhão de dólares até 2030, segundo estimativas do setor. Sem união, os países da periferia do desenvolvimento correm o risco de virar meros consumidores de sistemas caros e fechados, pagando licenças constantes para usar ferramentas que não ajudaram a criar.
Para furar esse bloqueio, o chanceler Mauro Vieira tem conduzido conversas com parceiros comerciais e políticos para levar a pauta a fóruns decisórios internacionais. O Brasil defende que o acesso à tecnologia seja tratado como uma ferramenta de desenvolvimento econômico. Nesse modelo, os países menos ricos precisam de facilidades para treinar seus próprios algoritmos e usar a inteligência artificial para áreas estratégicas, como agricultura de precisão e saúde pública.
Outro ponto central da articulação é a soberania sobre os dados gerados dentro das fronteiras nacionais. As grandes potências e suas empresas de tecnologia tratam informações de bilhões de pessoas como matéria-prima para treinar suas máquinas. O bloco liderado pelo Brasil quer garantir que países em desenvolvimento consigam controlar e lucrar com essas informações. É uma disputa direta pela redistribuição da riqueza digital.
Por que importa: Se o monopólio das grandes potências se consolidar, a conta chega direto ao bolso do brasileiro. Startups locais precisarão pagar taxas altíssimas em dólar para usar sistemas de inteligência artificial estrangeiros, engessando a inovação e encarecendo produtos digitais no país. Sem tecnologia própria, o Brasil perde competitividade industrial e agrícola, o que freia a criação de empregos qualificados e mantém a economia refém da importação de tecnologia.
