A Índia acaba de ultrapassar o Japão e virou a quarta maior economia do mundo. Ao mesmo tempo, líderes do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estão criando um sistema de pagamentos alternativo ao dólar. Não é coincidência: são dois movimentos da mesma estratégia para construir um polo de poder capaz de fazer frente ao domínio ocidental.
O crescimento indiano impressiona. A economia do país saltou de pouco mais de 1 trilhão de dólares uma década atrás para quase 4 trilhões hoje, consolidando a Índia entre os gigantes econômicos globais. Esse tamanho dá ao país peso político novo. Quando Modi fala, Wall Street e Washington escutam agora de forma diferente. E é nesse contexto que o BRICS quer acelerar sua ambição: criar um sistema de pagamentos que permita que membros façam transações sem depender do dólar americano.
A mecânica é simples em teoria, complexa na prática. Se Brasil, China, Índia e África do Sul conseguirem fazer comércio entre si usando suas próprias moedas ou uma nova moeda de cesta do bloco, reduzem a dependência do dólar. Isso economiza custos (não há conversão a cada operação) e, mais importante, retira poder das mãos dos EUA. Washington controla o sistema dólar: pode congelar contas, aplicar sanções, usar o banco central americano como arma política. Um sistema paralelo enfraquece esse poder.
O BRICS está expandindo também. Novos membros como Indonésia, México e Argentina ampliam o alcance econômico do bloco. Quanto maior a rede, mais atração ela tem. Brasil e outros exportadores de commodities veem potencial nisso: vender minério, petróleo e soja para a Índia em suas próprias moedas, sem intermediário dólar.
O desafio é imenso. China e Índia têm rivalidades comerciais e geopolíticas profundas. Suas moedas ainda não têm a confiabilidade global que o dólar tem. Há desconfiança sobre regras de negócio e supervisão. Um sistema assim só funciona se todos os membros confiarem um no outro, e essa confiança está longe de ser total. Além disso, a guerra na Ucrânia deixou a Rússia isolada, criando vazios e incertezas.
Por que importa: o Brasil exporta bilhões para Índia e China. Se o BRICS conseguir implementar um sistema de pagamentos próprio, os reais que brasileiros recebem valem mais no mercado (menos conversão, menos perda) e as compras internacionais ficam mais baratas. O custo do dólar na conta de energia ou na importação de remédios dos brasileiros pode cair. Não é automático nem rápido, mas a Índia disparando e o BRICS se movimentando mudam as peças do tabuleiro em que o Brasil joga.
