A NVIDIA acaba de ultrapassar a marca de US$ 4 trilhões em valor de mercado, consolidando-se como a empresa mais valiosa do mundo. No mesmo mês, a China anunciou um investimento de US$ 50 bilhões para alcançar autossuficiência em semicondutores de IA até 2027. Os dois movimentos contam a mesma história: quem controla os chips que fazem rodar a inteligência artificial controla o poder tecnológico e político da próxima década.
A NVIDIA chegou ao topo graças à demanda explosiva por seus processadores, especialmente os modelos H200 e Blackwell. Os data centers de IA, que alimentam ferramentas como ChatGPT e seus concorrentes, precisam desses chips para funcionar. A procura é tanta que a oferta não consegue acompanhar. Cada governo, cada grande empresa de tecnologia, cada país que quer competir em IA está em fila para conseguir esses processadores. É como uma corrida do ouro, mas o ouro são cilindros de silício com bilhões de transistores.
Enquanto isso, Pequim não quer ficar dependente de chips americanos. A China já enfrenta restrições comerciais impostas pelos EUA, que proíbem a exportação de tecnologia avançada de semicondutores para o país. Por isso, o governo chinês está acelerando seu próprio caminho: a SMIC, maior fabricante de chips da China, está expandindo a produção de chips de 5 nanômetros, ainda longe do que a NVIDIA consegue fazer com a TSMC (fabricante taiwanesa), mas um passo importante rumo à independência.
A diferença entre essas duas estratégias revela o cerne da disputa. Os EUA ganham porque dominam o design e a produção dos melhores chips do mundo. A China ganha tempo investindo pesadamente em fabricação própria, mesmo que por enquanto com tecnologia um pouco menos avançada. Mas a velocidade importa: cada fábrica de chips que a China constrói reduz sua vulnerabilidade a sanções americanas.
Essa corrida não é apenas sobre lucro de empresas. Quem controla os melhores chips controla quem consegue treinar os modelos de IA mais potentes. Quem treina os melhores modelos controla quem tem acesso aos sistemas de IA mais capazes. E quem tem acesso aos melhores sistemas de IA influencia defesa, economia e política. Por isso EUA e China tratam semicondutores como questão de segurança nacional, não de comércio.
Por que importa: O Brasil não fabrica chips avançados e importa quase todo o silício que consome. Se a disputa entre EUA e China aprofundar e gerar novas sanções, é possível que a disponibilidade e o preço dos semicondutores mais poderosos fiquem ainda mais escassos e caros. Isso afeta desde o preço de smartphones e computadores aqui até a capacidade de startups brasileiras de trabalhar com IA. Além disso, em uma competição por soberania tecnológica, o Brasil fica mais vulnerável simplesmente porque não tem indústria própria: depende de quem produz, de quem exporta e das relações geopolíticas entre Washington e Pequim.