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Argentina libera o peso e enfrenta desvalorização de 18% após pressão do FMI

ECONOMIA
Argentina libera o peso e enfrenta desvalorização de 18% após pressão do FMI

O presidente argentino Javier Milei anunciou a adoção do câmbio flutuante, liberando o valor do peso após intensas negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI). No primeiro dia de transação, a moeda desabou 18%, refletindo a pressão acumulada de anos de controle artificial do dólar. A medida marca o colapso de uma política de câmbio fixo que drenou as reservas internacionais do país e mantinha artificialmente o peso valorizado.

A Argentina enfrentava uma armadilha crescente: o governo controlava o preço do dólar para evitar inflação e instabilidade, mas essa política criava um buraco nas contas públicas. Empresas e cidadãos precisavam da moeda estrangeira para importações e investimentos, e o Estado não conseguia fornecer ao preço oficial. Resultado: as reservas internacionais derretiam enquanto um mercado paralelo de dólar explodia, com cotações bem acima da oficial. O FMI, financiador dos ajustes econômicos argentinos, pressionava há meses por uma abertura cambial real como condição para desembolsos de novos empréstimos.

Milei chegou ao poder em dezembro com uma agenda radical de reformas: corte de gastos, dolarização parcial da economia e, agora, liberalização do câmbio. A desvalorização imediata do peso reflete a verdade que o mercado já conhecia: o dólar deveria custar bem mais. Em teoria, um câmbio real (mais deprecciado) coloca a economia em pé de igualdade com a realidade e pode desinchar o mercado paralelo, que funcionava como uma válvula de escape.

Porém, a queda de 18% em um dia carrega riscos concretos. Empresas argentinas que pegaram empréstimos em dólar agora têm dívidas muito mais pesadas em termos locais. A inflação, que já era elevada, tende a disparar porque praticamente tudo que é importado fica mais caro. Famílias também sentem no bolso: poupanças em peso se evaporam, enquanto bens importados ficam inacessíveis. Milei aposta que o curto prazo de dor econômica levará, depois, a uma estabilização real e retorno do crescimento.

A aprovação da medida pelo FMI abre a torneira de financiamento para Buenos Aires nos próximos meses, algo vital para um país que não consegue mais captar dólares no mercado privado. Sem esse dinheiro, a Argentina não paga contas externas nem sustenta um nível mínimo de importações. É uma jogada arriscada, mas necessária: o câmbio fixo artificial havia se tornado insustentável.

Por que importa: A crise argentina impacta diretamente o Brasil. A Argentina é o segundo maior parceiro comercial brasileiro (atrás apenas da China), e a economia desacelerada lá reduz a demanda por exportações brasileiras, especialmente de commodities e bens industrializados. Estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, que têm forte presença no comércio bilateral, sentem a pressão. Um peso fraco também encarece as importações argentinas de produtos brasileiros, afastando clientes. A médio prazo, porém, se Milei conseguir estabilizar a Argentina com câmbio real e reservas recuperadas, o país pode reativar importações seguras e voltear a ser um mercado robusto para o Brasil. Por enquanto, a turbulência segue.

Fontes