O Brasil está na frente de uma coalizão de mais de 30 países em desenvolvimento que quer ter voz ativa na governança global de inteligência artificial. O Itamaraty articula esse bloco durante a cúpula do G20, onde líderes discutem um tratado internacional para compartilhar poder computacional entre nações ricas e pobres. O objetivo é claro: evitar que o monopólio da IA por poucos países ricos crie um novo abismo de desigualdade tecnológica e econômica.
Hoje, o mercado de inteligência artificial está concentrado nas mãos de meia dúzia de potências. Os Estados Unidos dominam com empresas como OpenAI, Google e Meta. A China investe bilhões para acompanhar. Enquanto isso, países em desenvolvimento ficam dependentes de tecnologia importada, sem acesso ao poder computacional necessário para treinar seus próprios modelos de IA. É como se o mundo tivesse energia elétrica, mas apenas os ricos pudessem acender a luz.
A cúpula do G20 reconheceu que essa desigualdade é um problema político e econômico real. Os líderes discutem mecanismos para que nações em desenvolvimento tenham acesso compartilhado a recursos de processamento de dados, evitando que a revolução da IA aprofunde a pobreza global. A proposta brasileira vai além: regular quem controla os dados, quem lucra com a tecnologia e como os benefícios são distribuídos entre países.
O Brasil não está fazendo isso por altruísmo. É uma ponte natural entre o Sul Global e as potências ricas. O país tem economia relevante, influência diplomática reconhecida e interesses claros em não ficar refém de decisões tomadas em Washington ou Pequim. Além disso, o Brasil tem um trunfo: dados. Bilhões de dados de consumo, clima, saúde e agricultura podem alimentar modelos de IA locais, mas só se o país tiver acesso ao poder computacional para processá-los.
A negociação ainda é frágil. Os EUA e a China têm pouco interesse em compartilhar tecnologia ou poder computacional com competidores em potencial. Mas a pressão do Sul Global é crescente. Se 30 países exigem regras novas, não dá para simplesmente ignorar. O resultado provavelmente será um acordo morno, com compromissos vágos, mas a porta abriu. Pela primeira vez, países em desenvolvimento estão na mesa de negociação sobre IA como atores, não como espectadores.
Por que importa: A inteligência artificial vai definir quem prospera e quem fica para trás nos próximos anos. Se o Brasil não tiver acesso a poder computacional e não souber usar seus próprios dados, o país vai importar soluções de IA prontas e caras, perdendo oportunidades de inovação local, empregos bem pagos e soberania tecnológica. Uma regulação global justa sobre IA agora é a diferença entre o Brasil ser criador ou apenas consumidor de tecnologia daqui a dez anos. E isso mexe direto com crescimento econômico, educação e competitividade das empresas brasileiras.
