Os países do Brics anunciaram o lançamento de um sistema de pagamentos baseado em tecnologia descentralizada para reduzir a dependência do dólar nas transações comerciais entre membros. Na mesma semana, o Brasil apresentou no G20 uma proposta de 12 pontos para negociar a paz na Ucrânia, sinalizando que os países emergentes estão construindo instituições próprias tanto para a economia quanto para resolver conflitos, historicamente mediados pelos EUA e aliados ocidentais.
Os dois movimentos revelam uma estratégia coordenada: enquanto o Brics trabalha em alternativas financeiras, o Brasil oferece-se como mediador neutro em questões de segurança que antes seriam decididas nos corredores da OTAN, a aliança militar ocidental liderada pelos EUA. A Rússia sinalizou abertura condicional à iniciativa brasileira, abrindo espaço para diálogos que fugissem ao eixo Washington-Bruxelas. "O Brasil está na posição única de falar com todos os lados", resumiu a estratégia diplomática em conversas reservadas entre ministros do G20.
O sistema de pagamentos do Brics funciona como um registro compartilhado de transações entre os países membros, permitindo que liquidem suas compras e vendas sem passar pelo dólar. Quando uma empresa brasileira vende soja para a China, por exemplo, o pagamento não precisa mais passar pelos bancos americanos que controlam as principais redes de transferência internacional. É uma mudança prática e relevante: reduz custos operacionais, acelera o fluxo de caixa e, principalmente, tira o poder de veto que Washington exerce sobre transações internacionais. O sistema ainda está em fase piloto, mas representa uma ruptura com 80 anos de arquitetura financeira global.
Essas duas iniciativas (moeda e mediação de conflitos) funcionam como suportes uma para a outra. Um sistema de pagamentos alternativo só prospera se houver confiança política entre os membros. Ao oferecer-se como mediador em conflitos geopolíticos, o Brasil constrói essa confiança. Inversamente, quanto menos os países emergentes dependerem do dólar, maior sua margem de manobra política para negociar em pé de igualdade com potências ocidentais. Não é coincidência que ambas as iniciativas avancem simultaneamente.
Os desafios são reais. O sistema de pagamentos do Brics ainda é pequeno comparado ao fluxo de transações em dólar. A mediação brasileira na Ucrânia enfrenta a resistência de atores que preferem a guerra à negociação. Mas o padrão é claro: após décadas de aceitar regras escritas pelo Ocidente, os países emergentes estão escrevendo as próprias.
Por que importa: A redução da dependência do dólar em transações com o Brics pode diminuir custos para exportadores brasileiros e importadoras que compram de fornecedores chineses ou indianos, potencialmente contendo pressões sobre o câmbio doméstico. Se o Brasil consolidar seu papel de mediador em conflitos globais, amplia sua influência política e comercial, abrindo espaço para negociar melhor com EUA e Europa. Além disso, quanto maior for a autonomia do Brasil em relação ao sistema financeiro americano, menos vulnerável fica a economias externas, como sanções ou apertos de liquidez impostos por Washington.
