A duas semanas das eleições presidenciais na Venezuela, o governo de Nicolás Maduro barra observadores internacionais de monitorar o pleito, enquanto no Sudão uma guerra civil que completa dois anos deixou 15 milhões de pessoas deslocadas. Nos dois casos, regimes usam a falta de transparência como ferramenta para manter poder enquanto crises humanitárias avançam sem resposta efetiva do mundo.
Na Venezuela, a oposição denuncia que as restrições impostas à presença de observadores internacionais aumentam a incerteza sobre a lisura do processo eleitoral. O bloqueio é sintomático: governos autoritários sabem que o escrutínio externo expõe fraudes e violações, então o isolamento se torna política de Estado. Maduro consolidou essa tática ao longo de duas décadas, e agora a repetiçãozinha nos próximos dias será um teste de até onde a comunidade internacional aceita deixá-lo caminhar sem pressão coordenada.
No Sudão, o quadro é ainda mais sombrio. Desde abril de 2023, uma guerra civil entre as Forças Armadas e a milícia paramilitar das Forças de Apoio Rápido devasta o país. Os 15 milhões de deslocados representam o maior êxodo forçado do mundo neste momento. Cidades inteiras enfrentam fome e doenças, enquanto campos de refugiados transbordaram há meses. A guerra não aparece na mídia ocidental com a frequência de outros conflitos, o que permite que se aprofunde com menos pressão diplomática.
A conexão entre os dois casos vai além da coincidência de timing. Ambos mostram como regimes conseguem manter poder bloqueando informação. Na Venezuela, a falta de observadores significa que eventuais fraudes não terão documentação internacional rigorosa. No Sudão, a dificuldade em acessar zonas de conflito deixa o volume real do desastre humanitário oculto. Quando ninguém consegue verificar o que acontece, o regime ganha espaço para agir sem culpa.
A comunidade internacional acompanha os dois cenários com respostas frágeis. No caso venezuelano, há críticas pontuais de governos ocidentais, mas sem sanções coordenadas ou ameaça credível de isolamento diplomático. No Sudão, agências humanitárias alertam para fundos insuficientes e acesso limitado a populações que precisam de ajuda urgente. Nenhum dos dois casos gerou mobilização que alterasse o cálculo dos atores locais.
O padrão revelador é que, quando a transparência desaparece, a indiferença internacional também cresce. Crises longe dos holofotes tendem a se expandir sem limite. A Venezuela segue presa em um ciclo de fechamento político enquanto a economia murcha. O Sudão vive uma situação ainda pior: a guerra continua porque nenhuma potência regional tem incentivo forte para intervir, e os países ocidentais têm outras prioridades.
Por que importa: A Venezuela é porta ao Brasil. Caravanas de migrantes venezuelanos seguem chegando a Roraima pressionando serviços de saúde e abrigo. Eleições fraudulentas na Venezuela sem fiscalização internacional tendem a aprofundar a crise política, aumentando o fluxo migratório nos próximos meses. Já o Sudão conecta com a segurança alimentar global e preços de commodities. Embora o Brasil não importe alimentos do Sudão em volume crítico, conflitos humanitários de larga escala no continente africano desestabilizam mercados de ouro, cacau e outros produtos que o Brasil fornece. Além disso, governos que bloqueiam transparência costumam ser menos previsíveis em negociações comerciais e diplomáticas, aumentando instabilidade nos mercados que o Brasil depende para crescer.
