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Sudão: a fome que o mundo ignora

GEOPOLÍTICA
Sudão: a fome que o mundo ignora

A Organização das Nações Unidas alertou esta semana que 25 milhões de pessoas no Sudão enfrentam insegurança alimentar grave devido à guerra civil que devastou o país há mais de um ano. O conflito entre o Exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido, milícia paramilitar rival, destruiu infraestrutura agrícola, interrompeu o comércio e deixou milhões à beira da fome. Não há negociações de paz à vista e a crise humanitária segue invisível nos noticiários globais.

A guerra começou em abril de 2023 como disputa pelo poder entre o general Abdel Fattah al-Burhan, que comanda as forças armadas, e Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como "Hemedti", líder das Forças de Apoio Rápido. Os dois grupos controlam porções do país e usam a fome como arma de guerra, bloqueando ajuda humanitária e impedindo a plantação de colheitas. Cidades inteiras foram esvaziadas. Campos ficaram abandonados.

O número é assustador: 25 milhões de sudaneses precisam de assistência alimentar urgente em um país de cerca de 45 milhões de habitantes. Segundo dados da ONU, metade das crianças do Sudão enfrenta desnutrição aguda. Famílias inteiras sobrevivem comendo folhas de árvore e insetos. A capital, Cartum, transformou-se numa zona de guerra urbana onde matar pela comida não é raro. Hospitais foram destruídos. Escolas viraram abrigos. A estrutura básica de sobrevivência desapareceu.

O silêncio internacional é ensurdecedor. Enquanto a invasão da Ucrânia concentra diplomacia, recursos e cobertura de mídia, o Sudão não sedia interesses geopolíticos ocidentais diretos. Não tem petróleo estratégico como a Arábia Saudita. Não integra alianças militares como a Otan. Não ameaça rotas comerciais do tamanho do Estreito de Ormuz. Resultado: dois países em guerra, duas tragédias humanitárias muito diferentes em atenção. A ONU pediu cessar-fogo urgente, mas nenhuma potência global está disposta a pressionar militarmente os combatentes sudaneses com a mesma intensidade vista em outros conflitos.

O impasse diplomático alimenta o impasse humanitário. Organizações internacionais descrevem o cenário como "catastrófico", mas catástrofes invisíveis não mobilizam doadores nem salvam vidas. O Brasil já enfrentou crises de desnutrição infantil em seu passado. Sabe o custo social e a cicatriz que deixa. O Sudão agora vive isso em escala continental, sem que haja plano de reconstrução ou mesmo promessa de intervenção.

Por que importa: O Sudão é um dos maiores produtores de ouro e arábica do mundo. A interrupção de suas exportas agrícolas pressiona os preços globais de trigo, milho e café. Quando a fome em um país africano reduz a oferta agrícola, o efeito alcança os supermercados brasileiros meses depois. A inflação do trigo pão sobe. O custo da cesta básica sobe. Além disso, crises humanitárias dessa escala geram fluxos migratórios irregulares que, diretos ou indiretos, afetam rotas de deslocamento global. Para o Brasil, significa: pressão inflacionária em commodities e instabilidade regional que complica a política externa africana num continente cada vez mais disputado por potências rivais.

Fontes