A disputa pelos semicondutores acirrou-se esta semana. Washington endureceu as restrições sobre exportação de chips avançados para a China, Pequim retalhou abrindo investigação antitruste contra gigantes do setor, e Berlim anunciou um pacote bilionário de subsídios para atrair fábricas de semicondutores à Alemanha. Os três movimentos, aparentemente desconexos, fazem parte da mesma estratégia: quem controla a cadeia global de chips controla o poder econômico e militar dos próximos anos.
A corrida começou de verdade quando Washington percebeu que depender da Ásia para chips deixava a economia americana vulnerável. Durante a pandemia, a escassez de semicondutores travou fábricas de carro e eletrônicos. Isso custou bilhões. De lá pra cá, o governo americano transformou os chips em arma de política externa: restringe tecnologia de ponta para a China, oferece bilhões de dólares de subsídios pra gigantes como Intel e TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company) instalarem fábricas nos EUA, e pressiona aliados para fazer o mesmo.
A Alemanha entendeu a mensagem. Berlim acaba de aprovar seu próprio arsenal de subsídios para colocar fábricas de chips no território alemão, espelhando o modelo do Inflation Reduction Act (IRA) americano. O objetivo é claro: blindar a Europa de depender de fornecedores asiáticos enquanto faz frente às restrições que Washington impõe à China. Não é por acaso que a maior potência industrial europeia investe pesado agora. A UE sabe que semicondutores são o motor de qualquer economia moderna.
Pequim não fica de fora. Enquanto os americanos restringem o acesso a chips de última geração, a China abriu uma investigação antitruste contra fabricantes ocidentais, incluindo gigantes que dominam o mercado. É o movimento clássico de retaliação econômica: se não posso comprar seus chips, vou dificultar seus negócios no meu mercado. Esses retaliadores aumentam o custo de fazer negócio com a China, forçando as empresas a escolher lados.
O resultado é uma fragmentação da cadeia global que levou décadas pra se montar. Antes, um chip era desenhado num lugar, fabricado em outro, testado em um terceiro. Tudo acontecia onde era mais barato e eficiente. Agora, cada bloco geopolítico quer sua própria cadeia. Isso custa mais caro, leva mais tempo, mas oferece segurança. A questão é: quanto as economias estão dispostas a pagar por isso?
Por que importa: O Brasil não fabrica chips de relevância global, mas sente tudo isso no bolso. Semicondutores encarecem tudo, desde smartphones até máquinas agrícolas que o país exporta. Quando a cadeia se fragmenta e subsídios inflam custos, esses reajustes percorrem o planeta. Além disso, o Brasil quer vender para China, EUA e Europa. Quanto mais dividido o mercado de semicondutores, mais complexa e cara fica a negociação de qualquer produto que contenha chips. O Brasil, fora dessa briga, acaba pagando a conta.