O dólar, moeda que há 80 anos funciona como a língua franca do comércio internacional, está perdendo espaço. Países do Sul Global trocam cada vez mais transações em moedas locais e exploram alternativas ao SWIFT, o sistema de mensagens que liquida praticamente toda operação financeira entre nações. O avanço do yuan digital chinês e de plataformas paralelas de pagamento não é apenas uma mudança técnica, é uma resposta estruturada às sanções americanas.
A máquina de sanções dos EUA, pensada como instrumento de isolamento, está gerando exatamente o efeito oposto. Quando Washington congela ativos, bloqueia acesso ao SWIFT ou ameaça empresas que negociam com alvos sancionados, empurra países inteiros a construir rotas de fuga. Brasil, Índia, Rússia, Irã e até aliados americanos na Ásia agora negociam petróleo, grãos e minérios em reais, rúpias, iuanes, tudo menos dólares. O yuan digital da China, lançado há poucos anos, já facilita pagamentos diretos entre bancos centrais sem passar pela infraestrutura americana.
O SWIFT, criado em 1973 para conectar bancos globalmente, tornou-se um ponto único de falha: quem controla as regras do sistema controla quem pode comerciar. Essa realidade ficou clara quando os EUA expulsaram bancos russos do SWIFT após a invasão da Ucrânia em 2022. A lição não passou despercebida. Agora, Brasil e vários países asiáticos desenvolvem plataformas próprias de liquidação de pagamentos, alguns conectados a um sistema de compensação em yuans administrado por Pequim.
O mercado responde onde a política perde efetividade. Empresas multinacionais que precisam evitar sanções secundárias (punições contra quem faz negócios com sancionados) buscam ativamente abandonar o dólar. Bancos centrais do Sul Global acumulam reservas em outras moedas. A China oferece conforto e liquidez sem a ameaça de congelamento que paira sobre contas em dólares. Não é ideologia, é risco calculado.
A ironia é estrutural: cada sanção reforça o incentivo para sair do sistema. Quanto mais Washington usa seu poder monetário como arma, mais erosão sofre a base que sustenta esse poder. O processo é lento, o dólar ainda responde por 59% das reservas cambiais globais, muito acima do yuan, mas a direção é clara e provavelmente irreversível.
Por que importa: O Brasil exporta soja, minério e carne em dólares, mas negocia com a China, seu maior cliente. Quanto menos dependência do dólar, menos pressão cambial sobre o real nos períodos de turbulência americana. Além disso, a construção de alternativas ao SWIFT abre margem para o Brasil fortalecer arranjos como o das cooperativas de bancos centrais do BRICS, reduzindo custos de transação no comércio regional. No curto prazo, as sanções americanas continuam impactando a inflação brasileira (via preços de commodities), mas a longo prazo, um sistema financeiro menos dolarizado pode dar ao Brasil maior autonomia nas decisões econômicas.
