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Oriente Médio·2 min de leitura

Gaza: a ONU contra o relógio para salvar seu próprio crédito

ORIENTE MÉDIO
Gaza: a ONU contra o relógio para salvar seu próprio crédito

A Organização das Nações Unidas negocia uma trégua humanitária em Gaza enquanto enfrenta um prazo invisível, mas real. Se o cessar-fogo não sair do forno diplomático nas próximas semanas, a instituição consolidará sua própria irrelevância no Oriente Médio, um golpe que vai além das vítimas civis: significa que o multilateralismo perdeu a última ferramenta de mediação que lhe restava.

O conflito entre Israel e Hamas, intensificado desde outubro de 2023, matou dezenas de milhares de pessoas e deslocou populações inteiras. Ministérios e porta-vozes das potências mediadores (Egito, Catar, Estados Unidos) discutem nos bastidores uma pausa nas operações militares que permita entrada de ajuda humanitária e, idealmente, caminhe para um acordo mais duradouro. A pressão vem de aliados americanos no Golfo e de capitais europeias: quanto mais dias passam sem trégua, mais a ONU parece uma instituição que discursa mas não resolve.

O problema não é novo, é crônico. A ONU fracassou em mediar conflitos maiores nas últimas duas décadas: Síria, Iêmen, Ucrânia. Em Gaza, o veto permanente americano (e antes dele, o russo) a paralisa. Mas desta vez o risco é diferente: não é só falhar numa negociação, é admitir que a instituição perdeu até mesmo o papel simbólico de mediadora no teatro geopolítico global. Um cessar-fogo que não saia desta conversa significa que os atores regionais (Israel, Hamas, Irã, mediadores locais) estão negociando bilateralmente, como se a ONU fosse invisível.

O timing é crítico porque a fadiga diplomática é real. Após semanas de conversas, os negociadores enfrentam o dilema clássico: Israel quer garantias de segurança pós-trégua, Hamas exige retirada total das tropas, mediadores tentam encontrar um meio-termo que ninguém está certo que funciona. A cada dia sem acordo, cresce o risco de que o processo seja abandonado e, com ele, a narrativa de que instituições multilaterais ainda têm poder de resolver crises humanitárias.

Para o Brasil, o impasse tem duas consequências tangíveis. Primeiro, a instabilidade no Oriente Médio pressiona os preços do petróleo (cerca de 70% do barril que abastece nosso combustível vem da região ou é indexado aos preços do Golfo), e uma crise prolongada afeta a bomba. Segundo, conflitos não resolvidos aumentam a migração e a fragmentação geopolítica, o que encarece o crédito internacional e reduz o apetite de investidores por economias emergentes como a nossa.

Por que importa: a ONU negocia Gaza não só por humanitarismo, mas para provar que ainda serve para algo. Se fracassa aqui, o Brasil e outras nações médias perdem o principal instrumento de voz em crises globais, e a fragmentação geopolítica se aprofunda, com efeitos na inflação, no custo de financiamento externo e na estabilidade dos nossos fornecedores de alimentos e energia.

Fontes