A Europa corre o risco de enfrentar uma nova crise energética no próximo inverno, alertam agências internacionais. Dois anos após a invasão da Ucrânia, que cortou o fornecimento de gás russo, a região segue vulnerável às flutuações de oferta e continua pagando preços elevados pela energia. A indústria alemã, motor econômico europeu, é a mais exposta: sem acesso ao gás barato que recebia da Rússia, enfrenta custos de energia entre os mais altos do mundo desenvolvido.
A dependência histórica do gás russo deixou a Europa desarmada quando as torneiras fecharam em 2022. Apesar de dois anos de esforços para diversificar fornecedores, aumentar capacidade de armazenamento e investir em fontes renováveis, os ganhos ainda são frágeis. O inverno europeu exige aquecimento intenso, e qualquer interrupção nas importações de gás liquefeito (GNL) ou queda inesperada na geração de energia renovável desencadeia alta de preços imediata. A indústria químico-farmacêutica, siderúrgica e de fertilizantes alemã depende de energia barata para competir globalmente; agora, compete com desvantagem estrutural.
A diversificação energética avança, mas com velocidade insuficiente. A Europa assinou novos contratos de GNL com fornecedores distantes (Estados Unidos, Austrália, Catar) e acelerou instalação de painéis solares e turbinas eólicas. Ainda assim, a transição é cara, lenta e deixa brechas no inverno, quando a geração eólica cai e os dias são curtos para energia solar. Armazenar gás em quantidade suficiente também é caro e requer infraestrutura que não estava preparada.
O preço é o termômetro do risco. Quando a Europa depende de fornecedores distantes e susceitos a interrupções geopolíticas (Oriente Médio, estreitos estratégicos), qualquer tensão global reflete no custo. Empresas alemãs já relocalizaram produção para os EUA e China, onde energia é mais barata. A perda de competitividade industrial é irreversível se os custos não caírem.
A urgência agora é tripla: acelerar renováveis para reduzir dependência de gás, blindar armazenamento de gás para os meses frios e negociar contratos de longo prazo com fornecedores alternativos (africanos, asiáticos). Nenhuma dessas soluções é rápida. O próximo inverno testará se a Europa consegue compensar o hiato antes que mais fábricas se mudem.
Por que importa: A crise energética europeia impacta o Brasil em duas frentes. Primeira: energia cara na Europa reduz demanda global por commodities, puxando para baixo o preço do minério de ferro e petróleo que o Brasil exporta, afetando receita fiscal e investimento. Segunda: indústrias brasileiras que competem internacionalmente ganham folga enquanto a indústria alemã recua, mas esse ganho é temporário e frágil. Se a crise energética europeia virar recessão, o comércio global desacelera, e o Brasil sente na exportação.
