A Ásia enfrenta temperaturas recorde enquanto o Sul do Brasil sofre com seca extrema. À primeira vista, são crises locais. Na verdade, revelam um padrão climático único que mexe na produção agrícola brasileira, no suprimento de energia e, em cascata, no bolso do consumidor. Cientistas alertam que 2024 pode ser o ano mais quente da história, fenômeno que prenuncia desafios ainda maiores para os próximos anos.
O calor na Ásia não é novidade isolada. Cidades como Bangkok e Nova Déli registram máximas que quebram registros históricos há semanas seguidas, com consequências que vão desde morte de pessoas até colapsos em infraestrutura energética. Simultaneamente, no Brasil, o Sul (especialmente Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) enfrenta chuvas abaixo do esperado no período de plantio da safra 2024/25. A combinação de fatores climáticos globais que esquentam o planeta também desacelera os padrões de circulação de ar e umidade que tradicionalmente trazem chuva à região.
A agricultura brasileira sente o impacto direto. O plantio de trigo, milho e soja (que representam bilhões de dólares em exportação) demanda água nos meses de primavera e início do verão. Com chuvas irregulares, a área plantada recua e a produtividade cai. Grandes produtores já cobram do governo crédito emergencial para cobrir perdas e financiar irrigação de emergência. Exportadores de grãos, por sua vez, temem reduzir volumes destinados à venda externa justamente quando a Ásia e o mercado global demandam mais alimento.
A energia entra no jogo porque o Brasil depende de hidroelétricas para 60% da sua produção. Com seca, os reservatórios abaixam. A resposta é ativar mais usinas térmicas (movidas a gás e carvão), que custam mais caro e elevam a tarifa de eletricidade. Meses de seca prolongada podem forçar racionamento ou apagões setoriais, cenário que não ocorria há anos.
O fenômeno climático global, intensificado por padrões que cientistas atribuem em parte ao aquecimento do planeta, não é uma anomalia passageira. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reafirma que essas ondas de calor tendem a ser mais frequentes e intensas nas próximas décadas. Há pressão crescente para que a COP (conferência climática de 2024) negocie metas vinculantes de redução de emissões, e não apenas promessas voluntárias.
Por que importa: A safra brasileira abastece o mundo, mas também o supermercado do brasileiro. Seca no Sul = colheita menor = preço de trigo, leite e carne mais alto na gôndola. Energia cara afeta inflação e competitividade das indústrias. Além disso, a pressão climática global força negociações internacionais que podem afetar comércio (acordos de carbono) e financiamento agrícola (bancos cada vez mais rigorosos com fazendas em áreas de risco climático). O brasileiro vê isso no prato, na conta de luz e no emprego.
