O Congresso Nacional da África do Sul elegeu Cyril Ramaphosa para um segundo mandato presidencial em junho, mas com um detalhe inédito: seu partido, o ANC (Congresso Nacional Africano), perdeu a maioria absoluta nas eleições de maio pela primeira vez em três décadas. Pela primeira vez desde o fim do apartheid, o país vai governar em coalizão, com o Partido Democrático (DA) e outras legendas menores dividindo poder e pastas ministeriais. Ao mesmo tempo, três novos países aderiram este ano a iniciativas de integração monetária no continente. O duplo movimento sinaliza que a África do Sul, maior economia do continente, quer consolidar blocos regionais próprios em vez de ficar à mercê de alianças externas.
As eleições foram um baque para o ANC. O partido que liderou a transição democrática após 1994 recebeu pouco mais de 40 por cento dos votos, ante cerca de 58 por cento em 2019. O desemprego acima de 30 por cento, apagões frequentes e inflação corroeram sua base eleitoral. O DA, legenda de centro-direita com força entre eleitores urbanos e da minoria branca, cresceu e agora senta à mesa de negociações. "Essa é uma oportunidade para que todos os sul-africanos se unam em torno de uma visão partilhada para o país", disse Ramaphosa após garantir a reeleição no Parlamento.
A coalizão estranha à primeira vista reflete pressões reais. O ANC precisava de parceiros para governar; o DA quis fazer parte do poder em vez de ficar na oposição. Nenhum dos dois consegue avançar sozinho uma agenda de reformas econômicas que a África do Sul urgentemente precisa, privatizações, redução de despesas, atração de investimento. A coalizão é frágil, mas também é um sinal de que o país busca consensos sobre rumos estruturais.
Paralelo a isso, a União Africana e blocos regionais como a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e a União Econômica e Monetária do Oeste Africano (Uemoa) avançam em projetos de integração. Este ano, três novos membros aderiram a iniciativas de moeda ou cooperação monetária no continente. O objetivo é reduzir a dependência do dólar americano e do euro nas transações intraafricas e criar poder de negociação coletivo frente a potências externas. A África do Sul, como membro do Brics e maior economia regional, é peça-chave nesse tabuleiro.
O recado é claro: depois de décadas dependendo de investidores estrangeiros e organismos internacionais, a África subsaariana quer desenhar seu próprio futuro econômico. A coalizão sul-africana, incômoda que seja, aponta nessa direção. Governos frágeis às vezes obrigam países a construir consensos internos mais sólidos antes de dar passos maiores.
Por que importa: O Brasil compete e coopera com a África do Sul em várias frentes, Brics, comércio bilateral e influência na América do Sul e no Atlântico Sul. Um governo de coalizão mais fraco internamente pode hesitar em iniciativas regionais, ou pode se mover mais devagar. Por outro lado, se a África do Sul consolidar blocos monetários africanos fortes, isso redefine as rotas de comércio e investimento no continente e muda onde o Brasil buscará parceiros e compradores nos próximos anos. A estabilidade política sul-africana é interesse direto brasileiro.
