O Mercosul iniciou rodadas de negociação com a União Europeia focando em comércio verde e inteligência artificial no mesmo momento em que a Índia reduz barreiras tarifárias para atrair gigantes como a Apple. Os dois movimentos refletem a mesma realidade: a indústria global está se reorganizando após a guerra comercial entre EUA e China, e os blocos econômicos se veem obrigados a escolher qual lugar ocupar nesse tabuleiro reconfigurado.
A Índia já faz sua jogada. O país abaixou impostos sobre importação de componentes eletrônicos e ampliou incentivos para fabricantes estabelecerem fábricas em solo indiano. A estratégia funcionou: Apple e seus fornecedores já expandem capacidade de produção local, transformando a nação asiática em alternativa viável para quem quer sair da dependência da China. É manufatura de ponta, gera empregos qualificados e transferência tecnológica.
O Mercosul reconhece que está em jogo. As conversas com a UE não são apenas sobre reduzir tarifa em commodities como no passado. O bloco sul-americano quer atrair investimento em setores de maior valor agregado: tecnologia verde, componentes de energia limpa, talvez até semicondutores. Abrir o mercado interno é visto como moeda de troca para conseguir espaço nas cadeias globais que saem da Ásia.
Mas essa abertura não é indolor no Brasil. Setores produtivos locais, como eletroeletrônicos e máquinas, temem concorrência de importados se as tarifas caírem. Industriais argumentam que a redução de barreiras pode esvaziar a produção doméstica antes dela conseguir escala competitiva. O dilema é clássico: ou o Brasil se abre e atrai investimento estrangeiro em manufatura (como faz a Índia), ou protege produtor local e corre risco de ficar isolado na nova corrida.
A rodada de negociações do Mercosul traz essa tensão à tona. Não é mais possível ficar neutro. A Ásia se mexeu primeiro, atraindo linhas de produção que historicamente partilhava com a Europa e o Atlântico Norte. A América do Sul quer sua fatia, mas o custo dessa estratégia recai sobre quem já produz aqui. O que o bloco escolher nos próximos meses vai definir se o Brasil aparece nas cadeias de manufatura do próximo ciclo ou fica vendo oportunidade passar.
Por que importa: A decisão do Mercosul afeta diretamente o preço de produtos eletrônicos nas prateleiras brasileiras e o emprego em fábricas locais. Se o bloco se abre e atrai investimento em alta tecnologia, pode criar postos qualificados; se a abertura é vista como capitulação, indústrias locais fecham plantas. Além disso, a competição com a Índia já está acontecendo: quanto menos atraente o Brasil ficar para multinacionais, mais elas apostam em solo asiático, e menos transferência tecnológica e renda chegam por aqui.
