O cessar-fogo entre Israel e Hamas entrou em vigor nesta semana com as primeiras trocas de reféns e prisioneiros. Ao mesmo tempo, o presidente ucraniano Volodimir Zelensky encontrou Donald Trump em Davos para discutir um acordo de paz na Ucrânia. Os dois eventos, separados por continentes, revelam uma dinâmica única: após anos de desgaste, mediadores e potências buscam transformar cansaço de guerra em acordos negociados sob uma nova administração americana.
Em Gaza, a mediação de Qatar e Egito conseguiu fazer o que parecia improvável meses atrás. A trégua começou com libertação de reféns israelenses detidos por Hamas e de prisioneiros palestinos custodiados por Israel. O processo é frágil e depende de extensões semanais, mas marca a primeira pausa significativa em 15 meses de conflito. A exaustão dos combatentes e a pressão internacional criaram espaço para que os mediadores avançassem, ainda que a solução seja temporária e reversível.
Na Ucrânia, o cenário é diferente mas a lógica é parecida. Zelensky, em Davos, reafirmou que o país não aceita qualquer acordo. Ele defende uma paz que garanta segurança territorial e institucional: não é apenas parar de atirar. Trump, que promete negociar rapidamente, e Zelensky buscam encontrar um ponto de equilíbrio. A administração anterior americana priorizava apoio militar incondicional. Agora, a conversa é sobre como encerrar a guerra sem que o resultado pareça capitulação ucraniana.
O que muda nesse novo contexto é a pressão por negociação. Com Trump na Casa Branca, o financiamento americano deixa de ser garantido automaticamente. Isso criou urgência em Gaza (Hamas e Israel precisam de legitimidade international) e na Ucrânia (Zelensky reconhece que o apoio não é infinito). A dinâmica não é mais "apoiar até a vitória" nem "render-se e pronto", mas "chegar a um acordo que ambos os lados consigam vender como vitória parcial".
Essas negociações carregam riscos. Acordos frágeis podem desabar rapidamente se uma das partes se sentir traída. Em Gaza, a trégua depende de renovações semanais e qualquer incidente pode derrubá-la. Na Ucrânia, o lado russo pode interpretar sinais de negociação como fraqueza e endurecer as exigências. Mesmo assim, o simples fato de que mediadores e potências estão conversando em vez de apenas escalando representa uma mudança real.
Por que importa: Guerras prolongadas afetam os preços das commodities que o Brasil importa. Com Gaza e Ucrânia em negociação, há menos risco de novo choque no trigo (que alimenta o pão na mesa) e nos fertilizantes que alimentam a lavoura brasileira. A redução de conflitos também estabiliza o dólar: quando há guerra, investidores fogem para moedas fortes, deixando o real mais caro. Com diplomacia avançando, há mais previsibilidade para a economia brasileira. Além disso, um acordo na Ucrânia liberaria recursos americanos que hoje vão para ajuda militar, potencialmente redirecionados para outros focos geopolíticos que impactam o Brasil.
