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Iêmen: Houthis avançam em cidade disputada enquanto guerra segue invisível

ORIENTE MÉDIO
Iêmen: Houthis avançam em cidade disputada enquanto guerra segue invisível

A BBC conseguiu acesso raro à linha de frente iemenita e documentou o avanço dos Houthis em uma cidade estratégica do interior, onde soldados pró-governo travam combates intensos contra os rebeldes. A guerra civil que assola o Iêmen há quase uma década segue viva e brutal, longe dos holofotes internacionais, enquanto os mesmos Houthis que atacam navios comerciais no Mar Vermelho ganham terreno no território.

O conflito iemenita é uma guerra esquecida pelos noticiários globais, mas os Houthis nunca deixaram de estar na linha de frente. O grupo, apoiado pelo Irã, controla a região mais populosa do país, incluindo a capital Sanã, e agora disputa territórios no interior contra as forças leais ao governo reconhecido internacionalmente. As batalhas acontecem longe dos grandes centros urbanos, em cidades que funcionam como pontos críticos do controle territorial. A reportagem da BBC com soldados pró-governo mostra homens cansados, mal equipados e enfrentando um inimigo que não demonstra sinais de desistência.

O enfraquecimento progressivo do Estado iemenita é o pano de fundo dessa disputa. Sem um governo central forte capaz de negociar uma trégua ou exercer controle total sobre o território, o vácuo de poder se torna território fértil para grupos como os Houthis expandirem sua influência. Cada ganho territorial dos rebeldes não é apenas uma vitória militar simbólica, mas consolida o controle sobre populações civis e linhas de abastecimento. Isso reforça a capacidade operacional do grupo para suas operações no Mar Vermelho.

Essa dinâmica no interior do Iêmen tem consequências diretas para uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo. O Mar Vermelho concentra cerca de 12% do comércio global, passagem obrigatória entre o Oceano Índico e o Canal de Suez. Desde 2023, os Houthis atacam navios comerciais na região, forçando armadores a desviar suas rotas pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, acrescentando até duas semanas de navegação e custos adicionais substanciais por viagem. Quanto mais os Houthis consolidam poder no Iêmen, maior a credibilidade de suas ameaças e mais embarcações evitam a região.

O Brasil está conectado a essa guerra de forma direta. O país exporta alimentos, celulose e minérios por rotas que passam pelo Mar Vermelho e importa bens asiáticos pela mesma via. Quando o frete encarece porque navios precisam dar a volta à África, o custo chega ao preço do frango congelado, do óleo de soja exportado e do diesel que circula nas bombas brasileiras. Uma guerra invisível em Sanã ou nas cidades disputadas do interior iemenita termina aumentando o custo de vida nas ruas de São Paulo e Brasília.

Por que importa: a instabilidade do Iêmen não é apenas um problema humanitário ou geopolítico regional. Ela alimenta diretamente o custo de produtos que passam por essas rotas e o preço que o consumidor brasileiro paga por importações. Enquanto a guerra segue esquecida nos noticiários, os Houthis consolidam o controle territorial que lhes dá poder de fogo para manter as rotas marítimas sob ameaça.

Fontes