Os ataques dos hutis contra a Arábia Saudita e navios que saem do Estreito de Ormuz romperam a faixa de estabilidade do petróleo e empurraram o barril para máximas de 22 semanas. O petróleo tipo WTI, referência global, oscilava entre 95 e 101 dólares desde segunda-feira até que as ofensivas dos últimos dias dispararam o preço para cima. A energia voltou a ser arma geopolítica no Golfo, e quem paga a conta está longe dali.
Os hutis, movimento apoiado pelo Irã que controla partes do Iêmen, têm aumentado os ataques contra infraestrutura saudita e contra navios comerciais no Estreito de Ormuz. O objetivo declarado é forçar Israel a recuar na Gaza, mas o efeito colateral é transformar uma das rotas mais críticas do mundo em zona de risco. Quando petroleiros hesitam em passar por ali, desvia-se carga, sobe-se o frete e, consequentemente, o preço do barril. Não é especulação: é física do mercado. Navios precisam de seguro extra, embarcam mais lentamente e buscam rotas alternativas, mais longas e caras.
O contexto é importante para entender por que o Golfo importa tanto. O Estreito de Ormuz é um funil por onde passa cerca de um terço do petróleo comercializado no mundo. Qualquer interrupção ali repercute em Tóquio, Roterdã e São Paulo. Os hutis sabem disso e exploram a vulnerabilidade: com drones e mísseis de baixo custo, conseguem elevar o custo geopolítico da região inteira.
A Arábia Saudita, maior exportador de petróleo do planeta, está na mira. Mesmo que não consiga fechar seus portos ou danificar campos em larga escala (suas defesas aéreas são robustas), a ameaça já muda o comportamento do mercado. Traders precificam o risco: se amanhã um ataque der certo, o preço pode disparar mais. Essa incerteza, por si só, já puxa o barril para cima.
O Brasil não produz petróleo o suficiente para suas refinarias e importa boa parte do que consome. Cada dólar que o barril sobe no Golfo encarece o preço na bomba em reais. Não é automático nem instantâneo, mas a correlação é real: inflação de energia afeta a conta de luz, o gás de cozinha e, em especial, o diesel que move o transporte de mercadorias por todo o país. Tudo fica mais caro: do pão na padaria ao frete do comércio eletrônico.
O risco agora é saber quanto tempo isso dura. Se os hutis escalarem os ataques ou se um deles conseguir danos significativos contra infraestrutura crítica saudita, o barril pode romper com força para cima dos 101 dólares onde está oscilando. Se, ao contrário, as defesas sauditas e as operações militares dos EUA na região conseguirem conter a ameaça, o mercado pode respirar. Por enquanto, ninguém sabe.
Por que importa: o Brasil importa petróleo do Golfo e depende de preços baixos para controlar a inflação. Um Golfo mais instável é inflação mais alta na conta de todos nós.
