Olho no Mundo, Semana de 2026-08-23
A economia desacoplada: quando o Ocidente e a China deixam de jogar o mesmo jogo
Os Estados Unidos entraram em modo de confronto tecnológico total. Novas restrições a semicondutores avançados, investigações antitruste contra gigantes chinesas, tarifas punitivas sobre chips e aço. A China respondeu na mesma moeda: investigações próprias, blindagem do crescimento doméstico, acordos de energia que cimentam a aliança com a Rússia.
O que mudou não é a existência do conflito comercial, isso vem desde 2018. O que mudou é a velocidade e o escopo. Uma semana bastou para que Washington e Pequim desenhem universos econômicos paralelos. Semicondutores, inteligência artificial, energia, infraestrutura: o mundo está se dividindo não por ideologia, mas por quem fabrica o quê e quem controla a próxima geração de tecnologia.
Donald Trump assumiu prometendo "uma era de ouro" para os EUA, construída em desregulação interna e agressividade comercial externa. Tradução: crescimento americano financiado por tarifas que o resto paga. A China, por seu lado, está fazendo o oposto: fechando mercados, investindo pesadamente em produção doméstica de chips através da TSMC no Japão, assinando acordos de US$ 25 bilhões em energia com Putin. Xi Jinping e Vladimir Putin não conversam sobre ideologia, conversam sobre como não depender do Ocidente.
Isso explica por que os aliados tradicionais dos EUA, Japão, Coreia do Sul, Europa, estão se movimentando desesperadamente. O Japão despeja bilhões em subsídios para a TSMC produzir semicondutores em solo nipônico. A Alemanha enfrenta eleições que podem reconfigurar a Europa. Todos querem garantir que não ficarão presos entre dois fogos num mundo onde tecnologia é geopolítica.
A paz segue frágil, mas o Oriente Médio respira
Gaza completou oito dias de cessar-fogo. Duas rodadas de trocas entre reféns israelenses e prisioneiros palestinos ocorreram sem colapso. O Iêmen reabriu uma fronteira que ficou fechada cinco anos. O que parecia impossível há semanas, uma descompressão regional, segue de pé, ainda que por um fio.
A fragilidade é real. O acordo de Gaza está dividido em fases: a primeira, de 10 dias, é a que está funcionando agora. A segunda fase exigiria retirada israelense total, coisa que o governo Netanyahu ainda se recusa a garantir. A mediação catariana e egípcia segue porque ambas têm incentivo: um colapso levaria a região à guerra aberta novamente.
O petróleo responde. Com menos fumaça de conflito no ar, os preços começam a descer. Isso importa para qualquer país que dependa do ouro negro, e o Brasil, que importa petróleo, sente na bomba. Uma gasolina mais barata não é luxo quando metade das pessoas abastecem um táxi ou uma vão para sobreviver.
Ainda não é paz. É pausa. E pausas podem virar guerra de novo no instante em que alguém piscar errado.
A diplomacia ocidental tenta antecipar o colapso
Enquanto a Rússia lança sua maior ofensiva em 18 meses sobre Kharkiv, ministros e enviados do Ocidente reúnem-se em Davos para discutir algo que parece anacrônico: como garantir a segurança da Ucrânia nos próximos dez anos. Síria, que acabou de livrar-se de Bashar al-Assad, tenta conquistar reconhecimento internacional e fim das sanções. Venezuela está mais isolada, com Nicolás Maduro assumindo um terceiro mandato contestado.
A lógica é clara: o Ocidente sabe que não vai expulsar a Rússia da Ucrânia num futuro próximo. Então negocia pelo que pode ter: garantias de segurança antes que Kiev sente à mesa com Moscou. É um jogo para tentar congelar conflitos antes que eles se tornem permanentes.
Síria é o teste. Um novo governo troca as armas pela diplomacia, mas segue isolado. Se conseguir reconhecimento e sair das sanções, é vitória diplomática. Se não, vira outro estado fracassado à deriva. Tudo depende de quanto o Ocidente está disposto a investir em reconstrução quando tem a Ucrânia sangrando a milhas de distância.
O clima já não é futuro, é presente
Onda de calor na Ásia, enchentes na África, e 2024 confirmado como o ano mais quente já registrado. A ONU cruzou pela primeira vez, num ano inteiro, a marca simbólica de 1,5 grau Celsius acima da média pré-industrial.
Isso não é especulação. Milhões de pessoas foram deslocadas. Colheitas desapareceram. Refinarias rusas queimam não por acidente climático, mas porque drones ucranianos as atacam. A guerra de energia entre Rússia e Ucrânia virou literalmente uma guerra pelo combustível disponível.
A COP30 chega a Belém em clima de urgência, com países negociando um fundo de US$ 300 bilhões para nações em desenvolvimento enfrentarem a crise climática. O Brasil chega com a Amazônia em queda livre. Desmatamento acelerado, queimadas, e um país que deveria ser produtor de estabilidade climática virou consumidor de calamidades.
Quando a temperatura sobe, conflitos explodem em cascata: refugiados climáticos se tornam crises políticas, falta de água vira disputa territorial, safras fracassadas alimentam a fome. O Oriente Médio respira porque há trégua. Mas em seis meses, quando o verão do hemisfério norte apertar de novo, nenhuma mediação segura nada se a água secar e a fome chegar.
A semana revelou um padrão simples mas brutal: o mundo que conhecemos, interdependente, integrado, regido por instituições, está se quebrando em pedaços. Os EUA e a China constroem economias desacopladas. O Ocidente congela conflitos porque não consegue resolvê-los. E o clima, que deveria ser a prioridade número um, segue sendo o pano de fundo de todas as outras guerras.
O Brasil está no meio disso, importador de tecnologia que não produz, dependente de petróleo que não extrai em quantidade suficiente, e com a Amazônia como moeda de troca em uma negociação que ainda não aprendeu a vencer.
Fontes
- EUA anunciam novas restrições à exportação de chips para China; Peking promete retaliação · Reuters
- Suprema Corte dos EUA confirma lei que força venda do TikTok · The Verge
- Guerra na Ucrânia: conversas sobre plano de paz ganham tração em Davos · BBC
- Síria: novo governo busca reconhecimento internacional e levantamento de sanções · Al Jazeera
- Frágil cessar-fogo no Oriente Médio mantém-se; fase 2 do acordo entra em negociação · The Guardian
- Petróleo recua com expectativa de aumento de oferta, mas tensões mantêm volatilidade · IEA
- Japão: eleição do novo PM redefine política fiscal e de defesa · Nikkei Asia
- Cúpula climática discute financiamento de US$ 300 bi para países em desenvolvimento · UNDP
- América Latina: desmatamento na Amazônia cai 30%, menor taxa em 9 anos · El País
- Investimentos em infraestrutura de IA movimentam US$ 200 bi no start do ano · CNBC
- UE avança com aplicação do AI Act; primeiras auditorias de conformidade começam · Politico
- Tensões escalam entre Israel e Hamas após ruptura de cessar-fogo · Reuters
- Ucrânia e Rússia: ofensiva russa no nordeste pressiona linha de frente · BBC
- Polônia: eleições presidenciais polarizam debate sobre UE e agricultura · AP News
- Conflito no Iêmen: Hutis e governo assinem trégua temporária · Al Jazeera
- EUA anunciam novas tarifas sobre chips chineses; escalada comercial continua · Bloomberg
- Trump sinaliza tarifas sobre aço importado e pressiona Brasil · Financial Times
- Economia global: FMI revisa projeção de crescimento para baixo · World Bank
- China e Rússia assinam acordos de energia no valor de US$ 25 bi · Reuters
- Japão e Coreia do Sul aceleram investimento em semicondutores · Nikkei Asia
- Cúpula UE-América Latina reforça cooperação em tecnologia e IA · The Guardian
- União Europeia aprova detalhes finais do AI Act · The New York Times
- Starship da SpaceX completa novo teste orbital com sucesso · NASA / SpaceNews
- Trump assume presidência dos EUA e assina onda de decretos executivos · Reuters
- China lança estímulos para defender crescimento de 5% em 2025 · SCMP
- Cessar-fogo Israel-Hamas entra em vigor com troca de reféns · BBC
- Venezuela: tensões escalam entre Maduro e oposição após posse contestada · El País
- Ucrânia intensifica ataques com drones a refinarias russas · The Guardian
- Síria: novo governo de transição consolida poder pós-Assad · AP News
- Alemanha se prepara para eleições federais em fevereiro · DW
- Cessar-fogo entre Israel e Hamas segue em vigor; segunda troca de reféns acontece em Gaza · Reuters
- Trump discursa em Davos e promete 'era de ouro' com ameaça de tarifas · BBC
- Rússia lança ataque maciço de drones contra Kyiv; Ucrania ataca refinarias russas · Reuters
- Ex-presidente sul-coreano Yoon Suk Yeol é preso após decreto marcial · AP News
- Maduro é empossado para terceiro mandato na Venezuela; oposição e EUA rejeitam resultado · Al Jazeera
- Ofensiva russa no leste da Ucrânia ganha intensidade · BBC News
- Alto o fogo em Gaza resiste à primeira semana · Associated Press
- Iêmen: novo governo de transição enfrenta crise interna · Al Jazeera
- Tensão EUA-China escalona com novas tarifas em semicondutores · Reuters
- Índia aprova plano de US$ 15 bi para fabricação local de chips · Nikkei Asia
- Cúpula do G7 avança acordo sobre regulação global de IA · Reuters
- Pesquisa inédita aponta IA generativa acelerando descobertas científicas · Nature News
- Mudanças climáticas: verão extremo no hemisfério norte · The Guardian
- Posse de Trump nos EUA promete onda de desregulação e tarifas · Reuters
- Cessar-fogo Israel-Hamas entra em fase final de negociação · Al Jazeera
- Zelensky pede pressão máxima sobre a Rússia após ataques aéreos · BBC
- China abre investigação antitruste contra Nvidia · Bloomberg
- França recebe cúpula global sobre IA em fevereiro com foco em regulação · Associated Press
- COP30 no Brasil: países se alinham para metas de emissões mais duras · El País
- ONU alerta que 2024 foi o ano mais quente da história registrada · The Guardian