Olho no Mundo, Semana de 2026-10-11
A semana mostrou um mundo em que as guerras não param de crescer, mas ninguém sabe como encerrá-las. No Oriente Médio, o conflito transbordou do Iêmen para a Arábia Saudita e o petróleo voltou a subir. Na Europa, a Rússia apertou o cerco com guerra híbrida e ameaças nucleares. E no tabuleiro global, potências médias, da Índia ao Brasil, tentam se posicionar sem escolher lado. Os três fios se conectam: o sistema internacional que existia desde o fim da Guerra Fria está se desfazendo, e o preço está sendo cobrado no bolso de todo mundo.
A guerra no Oriente Médio se espalha, não se resolve
Os hutistas, milícia apoiada pelo Irã que controla o norte do Iêmen, atacaram aeroportos na Arábia Saudita e mataram três pessoas em Riade. Foi o ataque mais direto ao território saudita em anos. A cidade de Taiz, terceira maior do Iêmen, voltou a ser cercada, com comida e combustível encarecendo. O governo iemenita, apoiado pela Arábia Saudita, lançou a maior ofensiva militar em tempos para recuperar áreas controladas pelos rebeldes.
A lógica é simples: o conflito no Iêmen nunca foi apenas iemenita. É uma guerra por procuração entre Riade e Teerã, travada com dinheiro, armas e tropas locais. Quando os hutistas atacam aeroportos sauditas, estão mostrando que o Irã tem alcance para retaliar mesmo sem disparar um míssil diretamente.
Em Gaza, o cenário é parecido. O plano de Trump para a região completou um ano sem cessar-fogo nem desarmar o Hamas. Israel atacou Gaza em nove de cada dez dias do chamado cessar-fogo. Enquanto isso, o vice-presidente americano, JD Vance, condicionou o fim da guerra no Oriente Médio à redução do programa nuclear do Irã, uma exigência que Teerã rejeita.
O Ocidente se afasta do premiê israelense, Binyamin Netanyahu. Mas a Índia de Narendra Modi caminha na direção oposta: abraça Israel e, ao mesmo tempo, se oferece para mediar a guerra da Ucrânia. É o sinal mais claro de que o mundo não está dividido em dois blocos, está dividido em oportunidades.
O petróleo flui, mas o medo cobra mais caro
Paradoxo da semana: as exportações de petróleo do Oriente Médio voltaram a níveis anteriores à guerra. Em quatro dos sete dias do final de setembro, os navios-tanque escoaram volume recorde pelos estreitos do Golfo Pérsico. O petróleo está saindo. Mas o mercado financeiro não está comprando a tranquilidade.
O barril de referência Brent (o preço do petróleo europeu, que reflete o risco do Oriente Médio) ficou US$ 12 mais caro que o WTI (o petróleo americano, menos exposto ao Golfo). Essa diferença, chamada de spread, é o preço que o mercado coloca no medo de uma crise no Estreito de Ormuz, a passagem estreita pelo qual escoa cerca de um quinto do petróleo mundial.
O barril se aproximou de US$ 90. Mas o verdadeiro gargalo não é o preço do cru em si, é o diesel. O combustível que move caminhões, navios e usinas está escasso e caro no mundo inteiro, e o frete encarece tudo o que chega às prateleiras. O diesel se tornou tão valioso que virou moeda de troca: Trump afrouxou sanções à Rússia justamente para negociar o fim da guerra em Miami, usando acesso ao mercado de combustível como isca.
A Ásia, que buscou abrigo energético longe do Golfo, encontrou o mesmo problema de perto. Os ministros de energia da ASEAN, bloco do Sudeste Asiático, se reuniram em Manila sob a ameaça de preços que sobem sem data para cair.
A Rússia aperta o cerco nuclear na Europa
Na outra ponta do tabeleiro, a Rússia intensificou a chamada guerra híbrida na Europa. Sabotagens, pressões imigratórias, desinformação e provocações militares entraram, segundo a ex-embaixadora dos EUA na OTAN, Julianne Smith, numa fase perigosa. A OTAN (aliança militar ocidental liderada pelos EUA) está contra a parede.
A Lituânia, país do Báltico e membro da aliança, suspendeu a proibição de estacionar armas nucleares em seu território. Moscou classificou o gesto como provocação. Enquanto isso, a Alemanha levou a Kiev o maior pacote de ajuda desde o início da invasão: 1,3 bilhão de euros em financiamento e equipamento militar.
A Ucrânia, por sua vez, impressiona com drones de combate, se tornou potência mundial nessa tecnologia. Mas a inovação não resolve o problema mais antigo da guerra: a falta de soldados. A Rússia tem mais gente para mandar para a frente. A Ucrânia, não.
E a disputa não para no campo de batalha. Rússia e EUA competem para vender gás para a Europa no meio da mesma guerra. A Europa é a cliente, e os dois lados querem o contrato. É um lembrete de que, mesmo em conflito aberto, o comércio não para, ele muda de forma.
Potências médias se reposicionam
No meio desse caos, os países que não são nem EUA nem China nem Rússia tentam ganhar espaço. A Índia é o exemplo mais nítido: Modi joga dos dois lados, comprando petróleo russo, abraçando Israel, oferecendo-se como mediador da Ucrânia e votando no BRICS (bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, entre outros) contra as tarifas americanas.
Trump reagiu buscando reaproximação com Pequim, depois de a cúpula do BRICS condenar abertamente suas sanções comerciais. O gesto mostra que Washington percebeu que a pressão máxima isolou os EUA, não a China.
Na Ásia, o rearmamento acelera. O Japão pediu o maior orçamento de defesa desde a Segunda Guerra Mundial. Israel, mesmo em conflito em múltiplas frentes, tem economia aquecida. E os EUA retiraram da lista negra a filha de um aliado da junta militar de Mianmar, um gesto pequeno, mas que sinaliza flexibilidade quando convém.
A Síria, onde a queda de Bashar al-Assad trouxe otimismo, já enfrenta protestos. O preço dos combustíveis disparou durante a transição. A lua de mel acabou antes da conta chegar.
O que liga tudo isso
As guerras do Oriente Médio e da Ucrânia não são conflitos separados. São frentes de uma mesma fratura global, onde velhos aliados se distanciam, rivais negociam por trás das cortinas e o petróleo funciona como termômetro e como arma.
O barril perto de US$ 90, o diesel como moeda de troca, os hutistas atacando Riade, a Lituânia abrindo espaço para ogivas nucleares, a Índia jogando em todos os times, tudo aponta na mesma direção: o mundo pós-Guerra Fria acabou, e o próximo ainda não nasceu.
O ponto de atenção mais imediato é o Estreito de Ormuz. Se a escalada entre Irã e Arábia Saudita ultrapassar o Iêmen e atingir o tráfego de navios-tanque diretamente, o barril pode saltar para US$ 100 ou mais. Aí o diesel, o frete e o preço de tudo o que chega ao Brasil vão subir junto, com ou sem eleição decidida.
Fontes
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- US-Ukraine-European negotiators held six hours of talks in Miami in bid for unified proposal to end Ukraine war, source says · Newsdata: Devdiscourse
- WTI holds steady as traders weigh US-Iran tensions and supply risks · Newsdata: Fxstreet
- Diesel crunch deepens as shipping costs squeeze global oil trade · Newsdata: Hellenicshippingnews
- Yemen’s Taiz under siege again as food and fuel prices rise · Al Jazeera English
- The US has lifted sanctions on the daughter of a Myanmar businessman accused of supporting the military-installed government, days after rep · Al Jazeera English [agência]
- Japan's record defense budget request has been followed by a couple of decisions that attracted little attention but are potentially consequ · The Diplomat [imprensa]
- Israel’s economy prospers despite years of war, but prices worry voters · Al Jazeera English
- On the latest episode of “The Foreign Affairs Interview,” Julianne Smith discusses the dangers of Russian escalation and the future of the t · Foreign Affairs [imprensa]
- Ukraine grapples with shortage of troops at front after over 4 years of war · GNews: Daily Excelsior
- Three Saudi nationals killed in Houthi attacks on Riyadh airport · BBC World
- Houthi strikes on Riyadh airport killed three Saudis as war escalates - Reuters · Reuters Conflict
- S&P 500, Nasdaq fall as oil surges, chip stocks slide · GNews: The Star
- Brent’s $12 Premium Over WTI Exposes the Cost of Hormuz Risk · Newsdata: Investing Nigeria
- Trump keen on good ties with China · GNews: The Tribune
- If true, this further buttresses the point I make at @CFR_org today: Just because more oil is making it out of the Middle East doesn't mean · Max Boot [analista RI]
- Attacks on Saudi airports claimed by Houthi rebels kill 3 people, officials say · GNews: The Atlanta Journal-Constitution
- US-Iran War Live News Updates: Oil rises as Middle East supply concerns persist amid shipping attacks · GNews: The Indian Express
- Israelis mourn on anniversary of the Oct. 7 attack as Palestinians live in devastated Gaza · GNews: Daily Excelsior
- Gaza war sped up India’s shift towards Israel under Modi · Al Jazeera English
- Russia grateful to India for its readiness to help resolve Ukraine conflict: Kremlin · GNews: Daily Excelsior
- EXCLUSIVE: US, Russia explore gas sale to Europe amid Ukraine war, say sources - Reuters · Reuters Conflict
- Beyond Hormuz: Yemen’s Saudi-Backed Campaign Against Iran’s Houthi Proxies Intensifies · Newsdata: Hudson
- Vance says Iran must cut enrichment to end war · GNews: The Straits Times
- What does a year-long ceasefire in Gaza look like? · Al Jazeera English
- Russia’s Hybrid War Has Entered a Dangerous New Phase · Foreign Affairs
- MEI Senior Fellow @Charles_Lister spoke with @CNN about the economic and security challenges Damascus is facing amid the post-Assad transiti · Middle East Institute [think tank]
- Saudi Arabia’s civil aviation authority has said at least three people were wounded in attacks on Jazan and Najran airports near the Yemen b · Al Jazeera English [agência]
- Middle East war sharpens focus on ASEAN energy security plans · Newsdata: Reuters
- Southeast Asia’s energy chiefs meet against backdrop of Iran war · Al Jazeera English
- Kremlin warns Lithuania that its move to lift a nuclear arms ban risks further escalation - Reuters · Reuters World News
- One year on, Trump's Gaza plan has not stopped Israeli fire or disarmed Hamas - Reuters · Reuters World News
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- Ukraine scrambles for money to fight war as Russian strikes batter economy - Reuters · Reuters Conflict
- Zelensky and Merz held a press conference in Kyiv. · War Translated [monitor conflitos]
- Yemen war: What’s the latest, as government forces claim advances? · Al Jazeera English
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- IDF kills Hamas commander who infiltrated Israel on Oct. 7, arrests weapons smugglers in Nablus · Mediastack: Jerusalem Post