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Semanaldomingo, 18 de outubro de 2026

Análise do dia

Olho no Mundo, Semana de 2026-10-18

Três grandes fios correram pela semana, e todos se encontram num mesmo ponto: a energia que move o mundo virou moeda de guerra, e quem paga a conta não está sentado à mesa das decisões.


O petróleo virou campo de batalha, e o barril carrega o custo de três guerras

A rota do petróleo pelo Mar Vermelho está de joelhos. Ataques dos rebeldes hutis do Iêmen contra território saudita, incluindo um aeroporto e instalações portuárias, reacenderam a guerra entre Riad e o grupo apoiado pelo Irã. O efeito direto foi brutal: o frete marítimo e o seguro de cargas de energia bateram recorde. Segundo ministros de energia da Opep e de países aliados, transportar um barril de petróleo hoje custa, por si só, um terço do valor do próprio barril. É como se o preço da gasolina tivesse de cobrir não só o custo do combustível, mas também um seguro contra bomba.

No Estreito de Ormuz, gargalo por onde passa quase um quinto do petróleo mundial, as negociações entre Estados Unidos e Irã sobre o programa nuclear de Teerã movem o preço do barril a cada discurso. Quando Washington ameaça, o barril sobe. Quando há sinal de conversa, cai. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse que os Estados Unidos farão "o que for necessário" para impedir que o Irã tenha uma arma nuclear. A declaração, feita na mesma semana em que o FMI alertou que uma guerra prolongada no Oriente Médio arrastaria toda a região para a recessão, mostra como a retórica e o mercado de energia estão grudados.

Paralelamente, a Argélia alcançou 1,003 milhão de barris por dia em setembro, patamar que não atingia há anos. É uma boa notícia para quem produz, mas uma gota oceano diante do custo logístico que a guerra impõe a todo o mercado.

Oriente Médio: diplomacia no papel, mísseis na prática

O chamado cessar-fogo em Gaza completou um ano no dia 10 de outubro. Mas a palavra "cessar-fogo" virou ficção: mais de 100 organizações de direitos humanos calculam que um palestino é morto ou ferido a cada 90 minutos. A ofensiva militar de Israel segue, e a opinião pública americana sobre o país despencou para mínimas históricas. A eleição israelense de 27 de outubro será um teste direto para o premiê Benjamin Netanyahu, que enfrenta pressão interna e externa, mas não mostra sinais de recuar.

Três meses atrás, os Estados Unidos anunciaram um acordo para devolver territórios ao sul do Líbano. Até agora, nenhuma das promessas foi cumprida. O acordo está parado, e o Hezbollah mantém suas posições. Na mesma semana, mísseis atingiram o palácio presidencial do Iêmen, sinal de que a guerra ali não vai cessar sozinha.

O padrão é claro: a diplomacia produz documentos, mas os campos de batalha seguem suas próprias regras. Cada conflito no Oriente Médio hoje está conectado aos outros, o Irã apoia os hutis, os hutis atacam a Arábia Saudita, o petróleo sobe, a pressão chega a Washington e a Teerã, e o ciclo recomeça.

A velha ordem mundial racha por todos os lados

A Ucrânia perdeu fôlego em Washington. O presidente Volodymyr Zelensky disse que se sente traído por Donald Trump e que o americano não está do "lado certo da história". O presidente americano, por sua vez, culpou Zelensky pelo preço recorde do diesel nos Estados Unidos, que passou de 4 dólares o galão na semana. A jogada é eleitoral: Trump precisa de um culpado doméstico para o custo de energia, e a guerra na Ucrânia é o alvo mais fácil.

Sem o socorro americano no mesmo ritmo de antes, Kiev muda de estratégia. A Ucrânia agora ataca a economia de guerra de Moscou em vez de disputar território metro a metro. Enquanto isso, a Rússia deteve um jornalista japonês sob acusação de espionagem, um gesto que tensa a já frágil relação diplomática com Tóquio e lembra que a guerra tem frentes para além do front.

A Europa, por sua vez, corre para rearmar. Governos aumentam orçamentos de defesa e encomendam mísseis. Mas um ex-embaixador americano na Otan alertou: o verdadeiro ponto fraco do continente não é a falta de tanques, é a dependência de energia nuclear russa e a fragilidade das usinas envelhecidas. Rearmar sem resolver a questão energética é tapar buraco com folha de papel.

Na península coreana, os drones entraram na guerra de nervos nuclear. Coreia do Sul e do Norte adicionam aeronaves não tripuladas de longo alcance a seus arsenais, uma mudança que pode desestabilizar um equilíbrio que já é de fio dental. E em Bangkok, o FMI e o Banco Mundial se reuniram sob dupla pressão: a crise de energia encarece tudo e a dívida global esmaga os mais pobres. Países de baixa renda estão dedicando até 14% de tudo o que arrecadam apenas para pagar juros de empréstimos. É dinheiro que não vai para escola, hospital ou estrada.


O que liga tudo isso

A semana mostrou um mundo em que os instrumentos de poder, petróleo, armas nucleares, dívida diplomática, estão todos sendo usados ao mesmo tempo, por todos os lados, e cada uso agrava o outro. A guerra no Iêmen encarece o frete, o frete encarece o petróleo, o petróleo inflama a política americana, a política americana decide o ritmo de ajuda à Ucrânia, a Ucrânia muda de estratégia e a Rússia endurece. O Oriente Médio produz crises que a diplomacia não consegue resolver, e as velhas instituições, FMI, ONU, acordos de controle nuclear, perdem eficácia a cada semana.

Para o Brasil, os sinais são diretos. O país importa diesel e gasolina quando a produção interna não dá conta, e o preço desses combustíveis sobe quando o frete global dispara e o dólar pressiona. O barril mais caro empurra inflação. A dívida dos países pobres que o FMI alertou inclui parceiros comerciais brasileiros na África e na América Latina. E a corrida nuclear na Lua, sim, EUA, Rússia e China querem instalar o primeiro reator na superfície lunar, mostra que a competição por recursos e tecnologia não respeita nem a atmosfera.

A pergunta para a semana que vem: as eleições em Israel, marcadas para 27 de outubro, vão mudar alguma coisa no tabuleiro, ou vão apenas confirmar que a política doméstica de cada país vale mais do que qualquer acordo internacional?


Fontes