Olh no Mundo
Geopolítica & Economia
O Essencial de Hoje +++
Brent em US$ 111.66/bbl·Brent em US$ 111.66/bbl·
Semanaldomingo, 25 de outubro de 2026

Análise do dia

Olho no Mundo, Semana de 2026-10-25

O Golfo se incendeia: armas, energia e a volta da negociação

O Irã e seus intermediários no Iêmen intensificaram o cerco sobre a Arábia Saudita e as rotas de navegação do Golfo Pérsico. Ataques dos hutis contra navios e cidades sauditas dispararam o preço do petróleo para o patamar mais alto em meses, com analistas internacionais projetando barris a 120 dólares se a escalada continuar.

Ao mesmo tempo, a eleição presidencial americana, que domina a atenção de Washington, congelou qualquer resposta militar imediata dos EUA ao cenário que queima. O intervalo político criou uma janela inesperada: Rússia e Ucrânia fecharam um cessar-fogo localizado em Oleshky e marcaram negociações de paz para novembro, enquanto Zelensky sinalizou disposição a congelar a guerra nas linhas atuais, se o Ocidente garantisse armas contínuas.

Trump, já na campanha, passou a elogiar publicamente a Rússia e sua força militar, sinalizando uma mudança de tom que, antes inimaginável, parece agora soprar vento a favor de Moscou numa mesa de negociações. O duplo movimento, crise no Golfo emperrando respostas dos EUA, ao mesmo tempo que o candidato republicano suaviza a retórica antirussa, abre fissuras nas alianças ocidentais precisamente quando elas mais precisariam estar fechadas.

A tecnologia vira frente de guerra, e as contas não fecham

Pequim respondeu ao cerco americano da forma mais direta possível: gigantes chinesas como ByteDance, Alibaba e Tencent encomendaram 35 bilhões de dólares em chips de vídeo da Nvidia, fabricante americana. É um jogo de cegos: Washington tenta barrar investimentos tecnológicos americanos na China para enfraquecê-la, mas as próprias empresas chinesas burlam a restrição comprando chips antes que ela vire efetiva.

O custo dessa corrida, porém, descortina o absurdo. A Anthropic, empresa de inteligência artificial, registrou prejuízo de 80,7 bilhões de dólares no primeiro semestre de 2026, uma cifra que mostra o quanto esse mercado está longe de ser lucrativo. Gigantes do Golfo, EAU e Arábia Saudita, encomendaram capacidade de IA para não depender tanto de Washington. Taiwan, que produz 92% dos chips mais avançados do mundo, virou o nó crítico: nem Samsung consegue contorná-la, precisando usar a tecnologia taiwanesa para os próprios processadores.

É a descrição exata de uma dependência que nenhum dos grandes atores consegue romper, nem com dinheiro ilimitado, nem com proibições.

Aliados americanos se rearmam sozinhos

O Japão abandonou a promessa feita em 1967 de nunca adquirir armas nucleares. Seu governo estuda a compra de submarinos movidos a energia nuclear e está reescrevendo a estratégia de segurança nacional para o fim de 2026. Não é mais uma questão abstrata: é política de defesa real, preparada por decreto.

Israel, por sua vez, organiza a primeira eleição desde o ataque do Hamas em 7 de outubro, com o debate público dividido não pela guerra em si, mas pelas fraturas internas sobre como ela foi conduzida. Gaza enfrenta fome estrutural, Israel restringiu mercadorias e famílias não conseguem oferecer refeições nutritivas às crianças. No Líbano, Hezbollah perdeu poder enquanto a Síria fecha acordos de reconstrução com o Banco Mundial, sinalizando que a ordem antiga do Oriente Médio não volta.

O padrão é claro: aliados tradicionais dos EUA, Japão, Israel, Coreia do Sul, estão blindando-se militarmente porque desconfiam da consistência da proteção americana. Trump ameaçou reduzir o apoio a aliados que não pagam mais pela defesa. Isso empurra cada um deles para uma autossuficiência que muda toda a geometria regional.

Por que isso importa para quem vive no Brasil

O barril de petróleo pode chegar a 120 dólares se o Golfo piorar. O Brasil importa gás natural da Bolívia e negocia participação em campos de petróleo do pré-sal: uma crise prolongada no Golfo encarece combustíveis na bomba e pressiona inflação. A moeda americana sobe junto com o barril, o dólar no bolso fica mais caro.

Na frente tecnológica, o Brasil está longe dessa disputa, mas sente o efeito colateral. Chips mais caros encarecem equipamentos de mineração, energia renovável e infraestrutura. A falta de clareza sobre regras americanas de comércio com a China cria volatilidade que afeta investimentos estrangeiros diretos, e o país precisa deles.

Mais importante: a volta de Trump com sinais de aproximação com Moscou muda a dinâmica da liderança global. O Brasil vinha apostando numa liderança americana institucional e previsível nas Nações Unidas. Se Washington se redirecion para negociar bilateralmente com a Rússia fora das instituições, o espaço para voz brasileira em questões globais se abre, ou desaparece, dependendo de como as próximas semanas se desdobrem.


Fontes