Olho no Mundo, Semana de 2026-11-01
Ucrânia: armarse para a guerra longa e abrir a porta da negociação ao mesmo tempo
Essa semana expôs o paradoxo central da guerra entre Rússia e Ucrânia. Os Estados Unidos fecharam com Kiev um contrato de 2,1 bilhões de dólares para 500 mísseis antibélicos, os projéteis que derrubam ataques aéreos. A entrega só deve ocorrer depois de 2030. O acordo é um voto de confiança na continuidade do conflito, não uma solução.
Ao mesmo tempo, Washington se moveu no sentido oposto. Os americanos ofereceram a Moscou um pacote concreto, petróleo da ilha de Sacalina e acesso ao oleoduto Druzhba, que leva combustível da Rússia para a Europa, em troca do fim da guerra. A lógica é direta: encerrar o conflito em troca de vantagens econômicas concretas.
Moscou, por sua vez, sinalizou abertura a intermediários. O embaixador russo no Paquistão disse que Putin aceitaria uma mediação paquistanesa, caso Islamabad quisesse assumir o papel. Os líderes da Finlândia e da Noruega ligaram diretamente ao presidente russo pedindo o fim das hostilidades. Nada disso avançou de fato, mas o simples fato de os canais estarem abertos já é um sinal.
Enquanto isso, a Rússia acelerou o conflito por outras frentes. Assinou um pacto de aliança militar com a Coreia do Norte, transformando Pyongyang em parceira formal de Moscou. Violou espaço aéreo de países europeus com aviões de combate e intensificou sabotagem no continente. A ONU reconheceu que a Rússia transformou o frio em arma ao atacar de propósito a rede elétrica ucraniana, condenando milhões ao escurecimento.
A guerra também cobra de quem não aparece nas manchetes. Mais de 120 mil golfinhos morreram no Mar Negro desde o início do conflito, vítimas de minas navais e da destruição do ecossistema marinho. É o custo invisível de uma guerra que não distingue entre campo de batalha e vida comum.
A lógica que atravessa esses movimentos é simples: todos se preparam para o longo prazo enquanto buscam uma saída. Os mísseis para 2030 e as ligações para Putin na mesma semana dizem o mesmo, o fim não está à vista, mas ninguém quer parecer que desistiu de procurá-lo.
Oriente Médio: guerras simultâneas e a conta sempre paga pela população
Se há um lugar onde a semana revelou a face mais dura dos conflitos, é o Oriente Médio. A guerra dos Estados Unidos contra o Irã já custou pelo menos 47,1 bilhões de dólares até meados de outubro, segundo estimativa do Comando Central americano, o braço militar dos EUA na região. O número ilustra o preço de uma guerra que avança sem perspectiva de resolução.
Israel foi às urnas em 27 de outubro numa eleição que funciona como um referendo sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, após três anos de guerra. O debate político vai além dos resultados: a dúvida sobre se o país ainda funciona como democracia plena já circulava durante a apuração. A Índia, por sua vez, apostou que a parceria estratégica bilateral sobrevive ao líder.
Em Gaza, o ano letivo recomeçou sob bombas. Crianças enfrentam ataques israelenses e tiros de franco-atiradores no caminho para a escola, segundo relato da Al Jazeera. A educação, que deveria ser refúgio, virou zona de risco.
No Iêmen, a cidade de Taiz, a terceira maior do país, está cercada há três semanas. Os preços dos alimentos dobraram, e o governador local declarou a cidade em famine, a classificação mais grave de escassez alimentar. Um ataque aéreo saudita matou ao menos 13 pessoas na região oeste, enquanto a coalizão liderada pela Arábia Saudita destruía arsenais de mísseis dos houthis, o grupo armado que controla boa parte do norte iemenita.
O Hezbollah, por sua vez, perde chão dentro do próprio Líbano. Não por pressão israelense direta, a maior ameaça vem de dentro, com uma emergência econômica que corrói a base social da milícia xiita.
O padrão é repetido e brutal: em cada frente, o preço humano recai sobre civis que não decidiram nada. Os números variam, 47 bilhões, 13 mortos, uma cidade inteira sem comida, mas a estrutura é a mesma. O poder militar se movimenta; a população paga.
O mapa militar se redesenha, e não é só na Europa
A semana também mostrou que novas alianças estão se formando em frentes que, há um ano, seriam improváveis.
A Austrália e a Papua-Nova Guiné firmaram o primeiro tratado formal de defesa da região do Pacífico, apelidado de Pukpuk. Tropas australianas já operam sob os termos do acordo, que entrou em vigor em julho. É um marco: pela primeira vez, dois vizinhos do Pacífico Sul assinam um pacto militar tão explícito.
Do outro lado do mundo, o presidente do El Salvador, Nayib Bukele, exportou sua guerra interna às gangues. Enviou 2.000 soldados ao Haiti para combater grupos armados, transformando uma ofensiva doméstica em operação internacional. A motivação imediata foi resgatar quatro militares salvadorenhos desaparecidos depois de uma emboscada nos arredores de Porto Príncipe.
Nessas movimentações há um fio comum. De formas diferentes, países estão externalizando suas doutrinas de segurança. A Austrália projeta influência no Pacífico. O El Salvador vende sua fórmula de combate a gangues. A Coreia do Norte se posiciona como parceira militar da Rússia. O mapa não se redesenha por uma causa única, mas cada movimento desloca um equilíbrio regional.
E como pano de fundo, as eleições de 3 de novembro nos Estados Unidos ameaçam redesenhar tudo de novo. A política externa entra como tema central da disputa, e os eleitores americanos decidirão, provavelmente sem saber, o ritmo das guerras e das alianças que estas linhas descreveram.
Para o Brasil, a semana ilustrou o custo indireto de um mundo em reorganização. O petróleo voltou a circular pelo Golfo Pérsico em volume maior do que antes da guerra, mas o preço não cedeu. E um barril caro é o mesmo que determina o custo de transporte, a inflação de alimentos e o preço na bomba. As alianças que se formam longe daqui moldam, em última instância, quão previsível ou volátil fica o comércio do qual o país depende. O que se monitora a seguir é o voto americano de 3 de novembro, e as primeiras reações dos governos que, durante toda esta semana, se posicionaram esperando exatamente esse resultado.
Fontes
- Ukraine won't see the $2.1 billion deal for 500 PAC-3 MSE Patriot missiles delivered until after 2030, sources familiar with the matter tell · War Translated [monitor conflitos]
- In a new episode of “The Foreign Affairs Interview,” William McRaven discusses the wars in Iran and Ukraine—and how technology is transformi · Foreign Affairs [imprensa]
- Dead dolphins, naval mines: Russia-Ukraine war destroys the Black Sea · Al Jazeera English
- After the ‘martyr’s’ funeral: The families left behind by Yemen’s war · Al Jazeera English
- Education under fire: Gaza’s children face death on their way to school · Al Jazeera English
- Israel's holding major elections on Tuesday. But as Israelis head to the polls, is the country even still a democracy? @AOD_PhD breaks down · Carnegie Endowment [think tank]
- Lebanon charges 13 over confiscated Hezbollah explosives · Al Jazeera English
- Bukele's gang offensive goes abroad as El Salvador rushes troops to Haiti - Reuters · Reuters Conflict
- Analysts say climbing oil prices reflect anxiety about the possibility of renewed hostilities in the US war on Iran, dwindling oil stocks, a · Al Jazeera English [agência]
- Oil flows are up as Iran war turmoil eases. Why do prices keep rising? · Al Jazeera English
- US offers Russia business deals to end Ukraine war · Newsdata: Bne Intellinews
- Russian envoy says Moscow open to Pakistan’s mediation on Ukraine conflict · Newsdata: 24 News Hd
- Happening now: @dahliasc, one of Israel’s leading political analysts and pollsters, joins FP Live to discuss the Israeli elections, coalitio · Foreign Policy [imprensa]
- Yemen’s besieged Taiz is in famine, governor says, as 13 are killed by Saudi airstrike · GNews: Moneycontrol
- US Iran war cost rises to $47.1 billion, CENTCOM estimate shows · GNews: Daily Excelsior
- Ukraine peace talks: 5 things to know about the chances of a deal · Newsdata: Politico Europe
- PH in talks with several countries for oil storage – Garin · Newsdata: The Manila Times
- Israel’s October 27 Election is a form of Referendum on Pm Netanyahu · GNews: Daily Excelsior
- For New Delhi, the central question is whether the interests and institutions underpinning bilateral cooperation are strong enough to sustai · The Diplomat [imprensa]
- From drone incursions to alleged attempts to assassinate European defence bosses, Russia is feared to be escalating a shadow war on the cont · Al Jazeera English [agência]
- EXCLUSIVE: Pentagon treating military base freezer malfunctions as suspected cyberattack, officials say - Reuters · Reuters Conflict
- Ukraine sends drones towards Moscow, Russia strikes Kharkiv, officials say - Reuters · Reuters World News
- El Salvador sends 2,000 troops to Haiti to rescue four missing soldiers · BBC World
- Coordenador de campanha do PL admite não ter prova de fraude eleitoral · Newsdata: Agenciabrasil Ebc Br
- Russia committed war crimes in Ukraine by attacking its energy grid, UN · GNews: Daily Excelsior
- Two Nordic leaders urge Putin to end Ukraine war in rare direct contact by Europeans · Newsdata: Devdiscourse
- US costs of Iran war rise to over $47 billion, according to Pentagon estimate - Reuters · Reuters Conflict
- Americans Hit Hardest by War-Driven Oil Price Surge · GNews: OilPrice
- Mapping the siege of Yemen’s Taiz, and the price families are paying · Al Jazeera English
- For New Delhi, the central question posed by Israel's elections is whether bilateral cooperation is strong enough to sustain momentum under · The Diplomat [imprensa]
- From artificial intelligence to Iran and Ukraine, here’s what to expect if Democrats win big in November. https://t.co/u8k9F3ex80 · Foreign Policy [imprensa]
- North Korea Declares Itself Primary Ally of Russia in Major Pact · Newsdata: Headtopics
- Russia committed war crimes in Ukraine, UN-backed inquiry says · GNews: Boulder Daily Camera
- In the wake of the Pukpuk Treaty, Australia and PNG continued to deepen relations with a new rotation planned, defense infrastructure invest · The Diplomat [imprensa]
- Saudi-led coalition says it struck Houthi missile facilities · Al Jazeera English
- "Hezbollah knows its real enemy isn't Israel; its real enemy is a Lebanese alternative of peace and a state." · Middle East Institute [think tank]
- Russia to host first Olympic federation world event since Ukraine invasion · BBC World
- A war crimes survivor who watched Myanmar's military burn in her village in Chin State today filed a criminal complaint in Denmark against m · The Diplomat [imprensa]