Os houthis, grupo armado iemenita, continuam atacando navios comerciais no Mar Vermelho, uma das rotas marítimas mais críticas do planeta. As operações não pararam desde que começaram no final de 2023, e agora já impactam diretamente o custo de fretes e seguros marítimos em escala global. O recado é direto: nem mesmo a maior potência militar do mundo conseguiu pacificar um estreito que, a cada dia, prova ser vulnerável a grupos que não têm nem marinha nem aviação.
A rota pelo Mar Vermelho é um atalho essencial, navios que saem da Ásia rumo à Europa e à América do Norte economizam semanas de viagem passando pelo Canal de Suez, no Egito, em vez de dar a volta por toda a África. Movimenta-se ali algo em torno de 12% do comércio global. Quando os houthis começaram os ataques, motivados, dizem, pela guerra em Gaza, o cálculo para as armadoras ficou simples: ou se arrisca a ser atingido (e perder a carga, ou pior), ou paga mais caro em combustível e seguro para desviar pela rota longa. A maioria escolheu desviar. Resultado: fretes internacionais dispararam, e seguros marítimos que curvavam a volta viraram itens caros demais.
Grupos armados não-estatais conseguiram fazer o que costuma exigir uma flotilha: estrangular uma artéria do comércio global. Os houthis não têm porta-aviões, não têm submarinos sofisticados, usam barcos rápidos e drones baratos. Mesmo com patrulhas americanas na região e operações contra seus depósitos de armas, os ataques prosseguem. Não param porque o grupo tem motivação política (não está negociando rendição) e porque um estreito de apenas 30 quilômetros de largura é quase impossível de policial completamente.
Por que importa: o Brasil depende de importações de eletrônicos, peças automotivas, roupas e produtos químicos que trafegam por essa rota. Quando fretes internacionais sobem, o custo fica embutido no preço final, na TV, na peça de reposição, na roupa no cabideiro. Inflação importada. Além disso, as exportações brasileiras também usam essas rotas, então brasileiros que vendem para fora também arcam com fretes mais caros. A consequência é indireta, mas real: parte da pressão inflacionária que afeta o bolso do brasileiro vem diretamente desse gargalo no Mar Vermelho.
