O governo do presidente argentino Javier Milei deu mais um passo na desestatização da economia ao anunciar a privatização da Aerolíneas Argentinas, a tradicional companhia aérea de bandeira do país vizinho. A medida faz parte de um pacote mais amplo de reformas que reduz o peso do Estado na economia. A oposição política já avisou que vai recorrer à Justiça para tentar barrar a venda da empresa.
A Aerolíneas Argentinas é um símbolo poderoso na história recente do país. Reestatizada pelo governo de Cristina Kirchner em 2008, após um período sob controle privado, a empresa voltou a ser gerida pelo Tesouro Nacional. Desde então, o embate sobre o seu controle reflete a disputa entre duas visões de mundo sobre o papel do Estado na provisão de serviços públicos e na geração de empregos.
Para Milei, a permanência da empresa nas mãos do governo representa um custo proibitivo para os cofres públicos. A defesa do corte de gastos é um pilar central do programa econômico do presidente, eleito com a promessa de enxugar a máquina pública e frear a inflação galopante que castiga a população argentina. O plano oficial defende que o mercado e a iniciativa privada são mais eficientes na administração de rotas e tarifas.
A oposição, no entanto, denuncia o que chama de "desmonte do patrimônio nacional". Líderes da oposição argumentam que a privatização ameaça a conectividade de cidades do interior do país, rotas consideradas essenciais e que não atrairiam o interesse de empresas privadas por baixa lucratividade. A promessa de contestação judicial aponta para uma batalha política e legal que pode atrasar ou até impedir a concretização da venda.
O movimento de Milei sinaliza uma reconfiguração profunda do papel do Estado na economia do Cone Sul. Se as privatizações avançarem com sucesso, a Argentina pode se tornar um laboratório de políticas de livre mercado na América do Sul. A pressão sobre o equilíbrio político regional aumenta na mesma proporção em que o país vizinho redefine suas prioridades econômicas e suas alianças comerciais.
Por que importa: O Brasil mantém uma fronteira extensiva e uma forte integração industrial e comercial com a Argentina, principal destino das exportações industriais brasileiras na América do Sul. Uma economia argentina menor e mais aberta nos moldes propostos por Milei pode redesenhar a logística de transporte de cargas e passageiros na região. No curto prazo, a briga judicial sobre a estatal alimenta a instabilidade política do país vizinho, o que costuma incidir diretamente na volatilidade do câmbio e nos fluxos de comércio que afetam o setor produtivo brasileiro.
