Um acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas entrou em fase final nesta semana, mediado por Catar e Egito. O acordo prevê a troca de reféns e uma pausa humanitária prolongada nos combates em Gaza. Mas a trégua, por mais alívio que traga aos civis, não toca nas questões profundas que alimentam o conflito há décadas.
O cessar-fogo funciona como um respiro. Israel concorda em pausar operações militares; Hamas liberta reféns sequestrados desde outubro de 2023; civis ganham espaço para sair dos escombros e acessar ajuda humanitária. Catar e Egito foram intermediários cruciais porque ambos têm canais abertos tanto com o governo israelense quanto com a liderança do Hamas, cada um por razões geopolíticas distintas. Mas um acordo de trégua não é paz, e a diferença importa: trégua é pausa; paz requer resolver o que gerou a guerra.
Os conflitos que puxam Israel e Hamas para baixo são estruturais. O Hamas permanece no poder em Gaza e mantém o objetivo de destruir o Estado de Israel, enquanto Israel insiste que o Hamas deve ser desmantelado antes de qualquer acordo político duradouro. A questão dos colonatos israelenses na Cisjordânia segue inflamando palestinos. Não há acordo sobre o futuro político de Gaza após a guerra. E a luta por Jerusalém, cidade sagrada para judeus e muçulmanos, segue irresolvida há 75 anos.
Historicamente, cessar-fogos no Oriente Médio costumam ser temporários. A trégua de 2008, a de 2012, a de 2014: todas entraram e saíram de circulação quando as partes sentiram que tinham de voltar ao conflito armado. O intervalo de paz nunca foi usado para desativar as armas ou mudar as prioridades políticas de nenhum dos lados. Israel continua vendo Hamas como uma ameaça existencial; Hamas segue enraizado na resistência armada.
O papel de Catar e Egito é delicado. Ambos ganham influência internacional como mediadores, mas têm interesse limitado em impor uma solução permanente. Catar abriga a liderança política do Hamas; Egito compartilha uma fronteira com Gaza e vive ondas de migração forçada de palestinos. Nenhum dos dois tem poder real de forçar um acordo de paz verdadeiro se Israel e Hamas se recusarem a sentar e negociar termos políticos.
O padrão é claro: sem uma negociação sobre quem governa Gaza no pós-guerra, sobre direitos dos refugiados, sobre o assentamento israelense e sobre o status final de Jerusalém, o cessar-fogo é um intervalo, não um encerramento. Quando essa trégua ruir, as mesmas bombas voltarão a cair porque as mesmas razões estarão de pé.
Por que importa: Cada volta do conflito em Gaza impacta os preços de energia global. O Oriente Médio produz a maior parte do petróleo e gás natural consumidos no mundo. Instabilidade lá mexe na inflação brasileira, no dólar e no preço da gasolina na bomba. Além disso, ondas de refugiados e migrantes forçados no Oriente Médio pressionam rotas migratórias que eventualmente afetam políticas globais de imigração e asilo, incluindo as que atingem brasileiros no exterior.
