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China aperta o cerco nas terras raras enquanto a seca ameaça as fábricas de chips

TECNOLOGIA
China aperta o cerco nas terras raras enquanto a seca ameaça as fábricas de chips

A China acaba de apertar ainda mais o controle sobre a exportação de terras raras, elementos químicos fundamentais para a fabricação de semicondutores, e o timing não é acidental. Simultaneamente, uma crise hídrica severa no Sudeste Asiático está secando os reservatórios que alimentam as fábricas de chips em Taiwan e Coreia do Sul. O resultado é uma pressão dupla sobre o elo mais frágil da tecnologia moderna: a cadeia global de semicondutores está sendo estrangulada dos dois lados.

As terras raras são 17 elementos da tabela periódica que parecem saídas de ficção científica, mas fazem o mundo funcionar. Estão nos ímãs dos smartphones, nos painéis solares, nos sistemas de defesa militar e, claro, nos chips que controlam tudo isso. A China domina mais de 70% da extração e processamento dessas substâncias no planeta. Ao apertar as restrições de exportação agora, Pequim está fazendo valer seu poder de mercado num momento em que a demanda global dispara. Analistas veem a medida como parte de uma estratégia maior de controlar não apenas a matéria-prima, mas a narrativa geopolítica sobre quem manda na tecnologia do século 21.

Mas a China não está sozinha nessa história. Taiwan e Coreia do Sul, que juntas fabricam mais de 90% dos chips avançados do mundo, estão enfrentando a pior seca em décadas. As fábricas de semicondutores consomem água em quantidade industrial: uma fábrica de chips moderna pode usar tanto quanto uma cidade de 100 mil habitantes. Com os reservatórios caindo, as gigantes do setor como Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) e Samsung estão sob pressão crescente. Se a seca persistir nos próximos meses, a produção pode encolher significativamente, disparando preços e criando gargalos em setores que vão desde carros até computadores pessoais.

O que torna essa situação particularmente perigosa é que esses dois problemas se retroalimentam. Quando há escassez de chips, os preços sobem e a demanda por terras raras cresce (porque as fabricantes precisam aumentar eficiência). Quando a China restringe terras raras, o custo dos chips sobe ainda mais. E quando há seca, as fábricas funcionam em marcha lenta, criando ainda mais incerteza sobre prazos de entrega. É um círculo vicioso que paralisa a cadeia inteira.

Os efeitos já começam a aparecer. Fabricantes de eletrônicos mundo afora alertam sobre atrasos e aumento de custos. Carmakers e produtoras de eletrodomésticos já reportaram problemas para obter componentes. O setor privado começou a buscar alternativas desesperadamente: alguns estão tentando encontrar fornecedores de terras raras fora da China (difícil e caro), enquanto outros investem em tecnologia de reuso e reciclagem de elementos raros em componentes descartados (lento).

A realidade é que não existe solução de curto prazo. A seca pode ser combatida com investimento em infraestrutura hídrica e dessalinização, mas leva anos. As restrições chinesas sobre terras raras podem ser negociadas diplomaticamente, mas Pequim tem pouco incentivo para ceder. Enquanto isso, o mundo segue dependente dessa cadeia frágil que liga um porto chinês, as fábricas do Sudeste Asiático e o seu celular.

Por que importa: o Brasil já sente os reflexos disso. Quando falta chip, faltam carros nas montadoras brasileiras, aumentando preço e reduzindo vendas. Quando os custos de terras raras sobem, os preços de painéis solares e turbinas de energia eólica no país disparam, atrasando a transição energética que o país planeja. Além disso, sementes para nossa agricultura também dependem de semicondutores sofisticados. Uma crise permanente na cadeia de chips não é só coisa de quem tem fábrica de tecnologia; mexe na bomba, no preço do supermercado e no que você paga de luz.

Fontes