Olh no Mundo
Geopolítica & Economia
O Essencial de Hoje +++
Brent em US$ 87.38/bbl·Risco baixo·Brent em US$ 87.38/bbl·Risco baixo·
Brasil·3 min de leitura

BRICS e Mercosul buscam autonomia comercial longe do duopólio China-EUA

BRASIL
BRICS e Mercosul buscam autonomia comercial longe do duopólio China-EUA

O Brasil avança em duas frentes simultâneas para reduzir a dependência do dólar americano nos negócios internacionais. Na cúpula do BRICS realizada no Rio, líderes do bloco discutem criar um mecanismo de pagamentos em moedas locais que dispense o dólar como intermediário, enquanto o Mercosul retoma, após 25 anos de impasse, negociações comerciais com a União Europeia com expectativa de fechamento ainda em 2025. As duas iniciativas refletem uma estratégia comum de países médios: buscar espaço entre a pressão comercial chinesa e o poder financeiro americano.

O Brasil propõe uma plataforma digital de liquidação financeira entre os membros do BRICS, permitindo que transações internacionais ocorram diretamente em reais, yuans, rúpias e outras moedas nacionais. Essa abordagem elimina a necessidade de converter valores em dólar a cada operação, reduzindo custos e, simbolicamente, diminuindo a dependência de Washington sobre o fluxo de capitais global. Embora a ideia enfrente desafios técnicos e de implementação, o avanço nas discussões sinaliza que grandes economias emergentes não aceitam mais a posição passiva no sistema financeiro internacional.

Simultaneamente, o Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, segue na reta final das negociações com a União Europeia. O acordo comercial trava principalmente em dois pontos: quotas agrícolas para produtos do Mercosul, o maior interesse da região, e padrões ambientais impostos pela Europa. A pressão é dupla. De um lado, a China aumenta sua participação no comércio sul-americano, oferecendo acesso a mercado sem as exigências ambientais europeias. Do outro, a Europa avança em suas próprias prioridades climáticas, criando um impasse que só cede agora porque ambos os lados percebem que ficar de fora é mais caro que ceder.

O contexto é de reconfiguração geopolítica. Nos últimos anos, Washington enfatizou seu relacionamento com aliados do Pacífico, deixando a América Latina em segundo plano. Pequim, por sua vez, aprofundou vínculos comerciais na região sem exigências políticas ou ambientais rígidas. Nesse vácuo, o Mercosul, que responde por mais de 200 milhões de pessoas e representa a segunda maior economia da América Latina, busca diversificar seus parceiros comerciais. Um acordo com a Europa reequilibra essa equação, oferecendo uma alternativa ao domínio chinês e ao desinteresse americano.

As duas iniciativas não eliminam o dólar ou o poder econômico dos gigantes. Mas refletem uma verdade simples: países médios cansam de ser peças de xadrez. Se o BRICS conseguir escalar sua plataforma de pagamentos e o Mercosul fechar com a Europa, criará-se espaço maior para negociação autônoma. Isso não significa ruptura com Pequim ou Washington, mas menos submissão às suas prioridades exclusivas. É autonomia, não isolamento.

Por que importa: O resultado direto para o Brasil é menos pressão sobre o real e mais espaço fiscal para políticas internas. Se a liquidação entre BRICS em moedas locais funcionar, reduz-se a demanda por dólar e ameniza-se a volatilidade cambial que afeta preços internos, inflação e poder de compra do brasileiro. Um acordo Mercosul-Europa, por sua vez, abre mercado para agronegócio, produtos industrializados e serviços brasileiros, gerando receita, emprego e crescimento sem depender exclusivamente da demanda chinesa. A aposta é dupla: ganhar moeda forte e ganhar barganha no tabuleiro internacional.

Fontes