A OTAN estabeleceu uma nova meta ambiciosa: seus membros devem gastar 3% do Produto Interno Bruto em defesa até 2027. A decisão, selada em cúpula realizada em Haia, reflete a pressão crescente dos Estados Unidos sobre aliados europeus para fortalecer capacidades militares. No mesmo período, a Coreia do Norte testou um novo míssil balístico com alcance estimado de 15 mil quilômetros, reacendendo o alerta de segurança na Ásia. Os dois acontecimentos, separados geograficamente, contam a mesma história: o mundo está entrando numa corrida armamentista acelerada.
Até agora, a OTAN pediu aos seus membros que mantivessem o gasto em 2% do PIB. Alguns países europeus nunca atingiram essa marca. A nova meta de 3%, um aumento de 50%, impõe um cronograma acelerado: Alemanha e França já se comprometeram com planos para elevar investimentos mais rapidamente do que o previsto. Para contexto, um país como o Brasil gasta cerca de 1,5% de seu PIB em defesa. Para a União Europeia como bloco, atingir 3% significará dezenas de bilhões de euros adicionais em armamentos, tecnologia e pessoal militar nos próximos três anos.
A decisão da OTAN não acontece num vácuo. Washington pressionou repetidamente aliados europeus a aumentarem contribuições, argumentando que a ameaça russa justifica rearmamento acelerado. A invasão da Ucrânia em 2022 mudou o cálculo político na Europa: consensos pacifistas se dissolveram rapidamente. Agora, até países historicamente relutantes em gastos militares, como a Alemanha, planejam investimentos sem precedentes em defesa. A França, potência nuclear europeia, também mira aumentos substanciais.
Simultaneamente, Pyongyang testou um míssil com alcance que o aproxima da capacidade de atingir territórios americanos. O teste reacendeu tensões regionais: Japão e Coreia do Sul convocaram reunião de emergência. A Coreia do Norte vem acelerado testes desde 2022, sinalizando progresso real em sua capacidade balística. Especialistas acompanham esses desenvolvimentos porque sugerem que Pyongyang segue sua própria corrida armamentista, alimentada por alianças com Rússia (há relatos de colaboração entre os dois países).
O que conecta os dois eventos é o padrão: grandes potências e seus aliados estão apostando que mais armas trazem mais segurança. Essa lógica alimenta um ciclo conhecido: um lado investe em armamentos, o outro sente-se ameaçado e investe ainda mais. Hoje, EUA, China, Rússia, Europa, Coreia do Norte, todos ampliam capacidades militares simultaneamente. O resultado é um mundo menos previsível, onde sinais podem ser mal-interpretados e onde o custo de um conflito sobe exponencialmente.
Por que importa: O Brasil não está fora dessa dinâmica. A corrida armamentista global afeta diretamente o custo de importação de tecnologia defensiva brasileira. Além disso, uma região mais tensa no Indo-Pacífico (onde a Coreia do Norte opera) impacta cadeias de suprimento globais de eletrônicos e chips, produtos que o Brasil importa. Se a OTAN aloca bilhões em defesa, menos capital flui para mercados emergentes e para transições energéticas. O preço de commodities que o Brasil exporta, petróleo, minério de ferro, pode oscilar com receios de recessão global provocados por gastos militares crescentes. Em suma: numa corrida armamentista, o Brasil não fica imune às consequências econômicas.
