Os Estados Unidos, a União Europeia e a Índia estão em movimento simultâneo para sair da dependência asiática de semicondutores. Donald Trump acaba de anunciar tarifas de 25% sobre chips importados, forçando gigantes como TSMC e Samsung a acelerar fábricas em solo americano. Bruxelas responde com 10 bilhões de euros para produzir um quarto de todos os semicondutores do mundo até 2030. Nova Delhi, por sua vez, investe 2 bilhões de dólares em uma agenda própria de inteligência artificial. O padrão é evidente: tecnologia deixou de ser um assunto de mercado e virou questão de segurança nacional.
O que mudou é a percepção do risco. Nos anos 2000 e 2010, terceirizar a produção de chips era uma decisão puramente econômica. Taiwan e Coreia do Sul concentraram a fabricação porque eram baratos e eficientes. A Ásia respondeu por mais de 90% da produção global de semicondutores, e ainda responde. Mas as tensões comerciais com a China, a guerra na Ucrânia e o bloqueio de tecnologias ocidentais a Pequim deixaram claro: quem controla os chips controla a economia, a defesa e a inteligência artificial do futuro. Nenhuma potência quer estar refém de uma interrupção de suprimentos.
As três abordagens ilustram como cada região enxerga seu próprio desafio. Trump aposta em coerção econômica: tarifas altas deixam importar chips estrangeiros caro demais, incentivando a produção local. A União Europeia toma o caminho do investimento direto em capacidade industrial interna, reconhecendo que começar do zero é caro. A Índia segue uma rota diferente: ao invés de competir na fabricação de chips de ponta, aposta em infraestrutura de dados e inteligência artificial, criando uma vantagem tecnológica própria com base na sua população de 1,4 bilhão de pessoas.
O desafio é real, mas as soluções são lentas. Construir uma fábrica moderna de semicondutores leva entre dois e cinco anos e custa entre 10 e 20 bilhões de dólares. Mesmo com os investimentos anunciados, Europa e EUA não vão diminuir significativamente a dependência de Taiwan e Coreia antes de 2030. Enquanto isso, a Ásia não dorme: continuam investindo pesadamente em capacidade, mantendo a vantagem tecnológica.
Há também um risco de fragmentação. Se EUA, Europa e Índia criarem "blocos tecnológicos" isolados, com pouca integração entre eles, a inovação fica mais lenta e cara. Um chip fabricado em acordo com normas ocidentais pode não ser compatível com sistemas asiáticos. A indústria de semicondutores sempre funcionou como um mercado global interconectado. Cortá-la em pedaços encolhe o bolo todo.
Por que importa: o Brasil importa tecnologia e equipamentos eletrônicos da Ásia e dos EUA. Se as tarifas americanas aumentam e a indústria global se fragmenta, fabricantes brasileiros pagam mais caro por componentes essenciais, desde chips de smartphones até sensores para a indústria. Isso impacta diretamente no preço de produtos eletrônicos na prateleira, na competitividade de empresas locais de tecnologia e até no custo de máquinas agrícolas e equipamentos de telecomunicações que o país tanto precisa. Além disso, a corrida global por IA e soberania tecnológica deixa claro que o Brasil está fora dessa conversa, e essa ausência tem custo.