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Tecnologiaquarta-feira, 29 de julho de 2026·3 min de leitura

Brasil quer regra global para IA, mas Europa já multa quem descumpre

TECNOLOGIA
Brasil quer regra global para IA, mas Europa já multa quem descumpre

O Brasil apresentou na Organização das Nações Unidas uma resolução para criar um marco internacional de governança ética em Inteligência Artificial, envolvendo países do Sul Global no debate sobre o futuro da tecnologia. Ao mesmo tempo, a União Europeia entrou na fase de aplicar multas de até 7% do faturamento anual de empresas que violarem seu regulamento de IA, o mais rigoroso do planeta até agora. A disparidade mostra uma corrida desenfreada: enquanto alguns países negociam princípios globais, outros já punem na prática.

A proposta brasileira parte de uma premissa sensata: sistemas de Inteligência Artificial de alto risco (aqueles que decidem sobre crédito, saúde, segurança pública) precisam de transparência, responsabilidade e inclusão democrática. O Brasil quer que países em desenvolvimento tenham voz nessa conversa, não apenas consumindo regras ditadas pelas grandes potências tecnológicas. É um movimento pelo pluralismo na governança de IA, reconhecendo que o algoritmo que nega empréstimo em São Paulo funciona com a mesma lógica que nega em Lagos ou Bangcoc.

Só que o ritmo europeu é muito mais acelerado. A União Europeia já aprovou o AI Act, seu regulamento sobre Inteligência Artificial, e entrou agora na fase de enforcement, ou seja, de verificar quem cumpre e quem não cumpre. Empresas que usarem IA proibida ou não atenderem requisitos de transparência podem sofrer multas pesadas. Para sistemas de alto risco, a sanção chega a 7% do faturamento global anual da companhia. Para contexto: uma multa assim para uma gigante de tecnologia pode ultrapassar bilhões de dólares.

A colisão entre os dois caminhos é real. O Brasil negocia princípios gerais e marcos éticos; a Europa já está definindo e punindo condutas concretas. Um acordo global leva tempo, envolve votações na ONU, compromissos entre governos com interesses muito diferentes. Multas, por outro lado, saem na frente porque um país ou bloco consegue legislar sozinho. Empresas de tecnologia, especialmente as baseadas na Europa, precisam se adequar agora ou pagar o preço.

Há também uma questão de poder econômico. A UE representa um mercado gigante: qualquer empresa que queira vender serviços ou produtos lá precisa cumprir suas regras. A resolução brasileira é mais simbólica por enquanto, um convite à conversa. Mas também é importante: traz países que costumam ficar de fora das decisões tecnológicas para a mesa de negociação. A diferença é que a Europa não espera por acordo global para proteger seus cidadãos.

O dilema é este: segue-se em frente com negociações lentas e inclusivas, ou cada potência reguladora impõe suas próprias regras? A primeira abordagem é mais democrática, mas deixa lacunas onde empresas conseguem se mover. A segunda é mais rápida e efetiva, mas pode fragmentar o mundo digital em blocos incompatíveis, prejudicando inovação e acesso a tecnologia.

Por que importa: o Brasil consome Inteligência Artificial tanto quanto exporta. Plataformas de comércio eletrônico, apps de crédito e sistemas de reconhecimento facial usam IA para tomar decisões sobre brasileiros. Se o Brasil não participa das regras globais, essas decisões continuam ditadas por empresas estrangeiras sem accountability local. Além disso, se o mundo se fragmenta em dois padrões (europeu rigoroso, resto permissivo), empresas brasileiras de tecnologia terão que se adequar a ambos, custando mais caro. E a corrida desenfreada por IA sem freios globais aumenta riscos de discriminação, manipulação e desemprego tecnológico, tudo tendo impacto direto no emprego e na renda do brasileiro.

Fontes