A inteligência artificial deixou de ser apenas um negócio de tecnologia e entrou de vez na briga pelo poder entre países. Enquanto a União Europeia aprova uma lei rigorosa com multas milionárias para empresas que não obedecerem, o Brasil propõe na cúpula do G20 um tratado global para governar a tecnologia, e nos EUA campanhas eleitorais já usam vídeos e áudios falsos gerados por IA para influenciar votos. O campo de batalha agora é quem controla essa ferramenta e como ela vai ser usada.
A União Europeia foi à frente. A Comissão Europeia ativou as cláusulas da Lei de Inteligência Artificial europeia, que pune empresas com multas pesadas se descumprirem as regras. As companhias têm seis meses para se adequar aos limites impostos pela lei, que classifica certos usos de IA como alto risco, como reconhecimento facial em espaços públicos e sistemas que influenciam decisões sobre emprego ou crédito. É a primeira vez que uma economia grande tenta frear a tecnologia antes que ela crie danos irreversíveis.
O Brasil, porém, quer ir além de regulações nacionais. Na reunião de líderes do G20, diplomatas brasileiros colocaram na mesa a ideia de um tratado internacional para governar a inteligência artificial em todo o mundo. A lógica é simples: se cada país faz suas regras sozinho, empresas exploram as brechas, mudando suas operações para onde a lei é frouxa. Um acordo global seria mais difícil de contornar e evitaria uma corrida para ver quem regula menos.
Mas enquanto diplomatas negociam, o perigo já está nas ruas. Nas eleições dos EUA, campanhas digitais criaram vídeos e áudios falsos realistas usando IA para semear dúvidas sobre candidatos e influenciar eleitores. As redes sociais travam uma luta contra esse conteúdo sintético, e a Comissão Federal de Comércio americana pediu que plataformas marquem obrigatoriamente quando um vídeo é gerado por inteligência artificial. O objetivo é ao menos deixar claro ao eleitor que aquilo que vê pode não ser real.
O dilema é duplo. De um lado, há o risco de que a IA seja usada para manipular a opinião pública com mentiras sofisticadas demais para detectar de primeira. Do outro, há a corrida geopolítica: quem domina a IA pode influenciar economias, eleições e conflitos. Por isso Europa coloca regras, Brasil propõe cooperação e EUA ficam divididos entre deixar o mercado livre e proteger suas eleições.
Por que importa: O Brasil não é imune a campanhas com vídeos falsos. Nas próximas eleições municipais, candidatos e adversários poderão usar IA para criar áudios comprometedores ou vídeos que simulam comportamentos. Se não houver padrões claros de marcação e comunicação, o eleitor brasileiro vai ter dificuldade em saber o que é real. Além disso, se a Europa apertar as regras e o Brasil não acompanhar, serviços de tecnologia podem ficar mais caros aqui, pois empresas repassarão os custos de conformidade aos usuários brasileiros.
