A China apresentou esta semana seu novo processador de inteligência artificial Ascend 910C, capaz de competir com os chips de ponta fabricados pela americana NVIDIA. O lançamento da Huawei marca uma virada: bloqueios comerciais norte-americanos que buscavam frear o avanço tecnológico chinês estão tendo o efeito oposto, forçando Pequim a construir sua própria cadeia de semicondutores em vez de importá-los.
Desde 2022, Washington vem proibindo empresas americanas de vender chips avançados e tecnologia de fabricação para a China, temendo que Pequim use a inteligência artificial para aplicações militares. A estratégia era clara: isolar o país da ponta da inovação global. Mas enquanto a China acelera seu próprio desenvolvimento, vizinhos como Coreia do Sul e Japão veem o tabuleiro se mover. Samsung (sul-coreana) e TSMC (taiwanesa) acertaram recentemente um acordo de cooperação em semicondutores, sinalizando que ambas planejam coordenar sua cadeia de suprimentos e se blindar da competição chinesa.
O que está em jogo é quem dominará a produção de chips nos próximos anos, uma tecnologia tão crítica quanto petróleo no século 20. China busca autossuficiência. Coreia e Japão querem manter sua fatia do mercado global. Os EUA, por sua vez, apostam em desacelerar o rival, mas o resultado é uma corrida armamentista tecnológica que fragmenta o mercado global de semicondutores em blocos rivais.
A disputa também expõe uma fragilidade estrutural: o mundo depende de poucas fábricas. TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company) produz mais de 60% dos chips de alta performance do planeta. Samsung, NVIDIA e fornecedores sul-coreanos de materiais completam uma cadeia concentrada demais. Qualquer ruptura afeta bilhões de dispositivos em uso.
Pequim viu nisso uma oportunidade. Mesmo que o Ascend 910C ainda não alcance a performance máxima da NVIDIA, sua existência envia um recado: sanções não quebram a China, apenas a obrigam a inovar mais rápido. Para Coreia e Japão, o acordo bilateral é defesa: reconhecem que não conseguem vencer uma corrida de tecnologia pura, mas podem se manter relevantes coordenando produção e suprimentos enquanto os americanos travam Pequim.
Por que importa: o Brasil não fabrica chips, mas importa componentes eletrônicos (telefones, eletrodomésticos, equipamentos industriais) que dependem dessa cadeia global. Se blocos rivais de semicondutores cristalizarem, componentes podem ficar mais caros e escassos por aqui. Além disso, inteligência artificial que roda em chips chineses mais baratos pode deslocar investimentos estrangeiros em computação para regiões onde o custo cai, afetando decisões de empresas sobre onde colocar data centers e operações de IA.