A China realizou o maior exercício militar em torno de Taiwan desde os anos 1990, mobilizando porta-aviões, destróieres e caças em uma demonstração de força que não deixa dúvida: o impasse diplomático virou confronto. Os Estados Unidos responderam no mesmo instante, despachando um grupo de porta-aviões para a região. O recado é claro de ambos os lados, Taiwan não é mais uma tensão crônica que se aguenta. É um ponto de inflamação que pode acender a qualquer momento.
O tamanho da operação chinesa é revelador. Centenas de aeronaves, navios de guerra e soldados cercaram a ilha por dias em um simulacro de bloqueio. Nada disso é novo em propaganda militar, o que é novo é a escala e a frequência. O Pentágono não tardou a confirmar a presença de seus porta-aviões, reforçando o compromisso americano de manter aberto o Estreito de Taiwan, uma das rotas comerciais mais movimentadas do planeta. Dois porta-aviões na mesma região é linguagem diplomática que ninguém traduz errado: "não recuamos".
A importância geográfica do estreito explica o alarme. Por ali passam cerca de 40% do comércio marítimo global de eletrônicos e chips. Taiwan fabrica mais de 60% dos semicondutores do mundo e responde por praticamente a totalidade dos chips de alta tecnologia, aqueles que fazem rodar desde o seu telefone até data centers que movem a inteligência artificial. Se o estreito fecha, o mundo digital congela. Não é exagero, é logística.
O que mudou nos últimos anos é que Pequim elevou o tom. Antes, tensões nessa região eram quase rituais: exercícios quando um presidente americano visitava Taiwan, retórica quando uma embaixadora dos EUA entrava em Taipei. Agora as operações militares são maiores, mais frequentes e menos previsíveis. Analistas apontam que a China está testando os limites americanos, até onde Washington vai tolerar antes de recuar. Para Pequim, conquistar Taiwan não é apenas um objetivo geopolítico, é uma questão de legitimidade doméstica. Para Washington, perder Taiwan é entregar ao rival comunista a maior fábrica de chips do mundo.
Os EUA apostam que a demonstração de força com porta-aviões e destroços intimidará Pequim e manterá a ilha aberta. Pequim aposta que o desgaste das operações americanas, a fadiga política, o custo financeiro, o isolamento diplomático que espera colher em aliados, vai acabar por fazer Washington ceder. Enquanto isso, Taiwan segue na mira, sem muita margem para negociar seu próprio futuro.
A soberania taiwanese está em xeque, mas o que move as capitais é o que passa pelo Estreito. Taiwan fabrica os chips que armam o mundo contemporâneo, desde militares até civis. Qualquer bloqueio credível mexe com preços, com cadeias de produção e com a capacidade de qualquer país competir no mercado digital.
Por que importa: O Brasil importa chips e componentes eletrônicos de Taiwan e depende de rotas abertas no Pacífico para exportar manufaturados e grãos. Um fechamento do Estreito ou um conflito prolongado encareceria importações, desaceleraria a indústria brasileira e elevaria os preços de eletrônicos e equipamentos. A inflação pressionaria o custo de vida, reduzindo o poder de compra. Além disso, a margem de segurança entre potências nucleares reduz-se, qualquer acidente militar no Estreito afeta a confiança nos mercados globais e seca investimentos externos. Tensão lá é recesso aqui.
