China e Estados Unidos retomaram negociações em Genebra focadas em semicondutores, enquanto a Coreia do Sul anunciou um fundo de 20 bilhões de dólares para garantir autonomia nessa tecnologia. Os movimentos revelam que os componentes eletrônicos deixaram de ser simples insumos industriais e se tornaram o principal instrumento de poder geopolítico, capaz de definir quem comanda o comércio global nos próximos anos.
Até pouco tempo, o debate sobre chips era território de engenheiros e gerentes de empresas de tecnologia. Hoje, aparece nas cúpulas de negociação internacional como instrumento estratégico. Os EUA vêm restringindo a venda de semicondutores avançados para a China desde 2022, justificando-se com razões de segurança nacional. A China, por sua vez, pressiona por flexibilização dessas barreiras. A reunião em Genebra marca o retorno ao diálogo, embora ambos os lados permaneçam inflexíveis sobre os pontos centrais: Washington quer manter controle sobre tecnologias críticas, e Pequim busca acesso garantido.
O panorama ganhou nova dimensão com o investimento sul-coreano. Seul reconhece que os maiores produtores de chips do mundo, como a Samsung e a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company), enfrentam riscos crescentes em suas operações. Uma guerra comercial intensificada ou um conflito regional poderiam interromper o fornecimento global. Por isso, o fundo de 20 bilhões de dólares visa diversificar a produção de componentes de memória avançada, reduzindo a dependência de um único país ou fabricante. É um movimento defensivo, mas também ofensivo: a Coreia do Sul quer participar das redes de fornecimento que serão dominantes.
O controle sobre chips funciona como controle sobre o futuro. Quem domina a cadeia produtiva dita regras: determina quem pode comprar, por quanto tempo, a que preço. Carros elétricos, data centers de inteligência artificial, sistemas de defesa militar, infraestrutura de telecomunicações todos dependem dessa tecnologia. Interromper o fluxo é tão eficaz quanto impor sanções tradicionais, mas mais silencioso e difícil de contestar internacionalmente.
O Brasil sente esse jogo de forma indireta, mas crescente. A falta de autonomia em chips encarece produtos tecnológicos no mercado interno, do celular à máquina de lavar. Quando há tensão entre superpotências, os preços sobem. Além disso, a expansão do 5G nacional e projetos de cidades inteligentes dependem de importações que podem sofrer restrições em momentos de instabilidade. Empresas brasileiras que usam semicondutores nos processos de produção sentem cada movimento do tabuleiro geopolítico.
Há também uma oportunidade encoberta. O Brasil possui terras raras e outros minerais críticos para fabricação de chips. Se a diplomacia conseguir aproximar países em desenvolvimento e criar cadeias alternativas às dominadas por EUA e China, cidades como Belo Horizonte ou Jequitinhonha poderiam integrar a oferta global. Por enquanto, porém, o Brasil observa de fora enquanto as potências redefinem as regras do jogo.