O governo britânico anunciou um plano nacional de inteligência artificial que prevê 20 bilhões de libras em investimentos, com construção de datacenters soberanos, formação de profissionais e parcerias com startups de tecnologia avançada. A estratégia foi desenhada para garantir que o país tenha controle sobre sua própria infraestrutura de IA, em vez de depender inteiramente de empresas estrangeiras. O anúncio chega num momento em que a economia global se rearranja em torno de quem domina a tecnologia que promete redefinir indústrias inteiras.
A dimensão dessa corrida ficou evidente nesta semana: a NVIDIA, fabricante dos chips que processam a inteligência artificial, ultrapassou 5 trilhões de dólares em valor de mercado e se tornou a empresa mais valiosa do mundo. Para ter ideia do tamanho, esse valor é maior que o PIB de qualquer país da América Latina somado. A empresa cresceu porque gigantes como Microsoft, Google e Meta disputam seus processadores gráficos para alimentar seus sistemas de IA. Quem controla o hardware controla a infraestrutura.
A Microsoft, por sua vez, acaba de comprar a Figure AI, startup de robótica humanóide, por 12 bilhões de dólares. A empresa tinha levantado 675 milhões de dólares numa rodada de investimento meses antes, o que mostra o quanto a gigante de software está disposta a pagar para não ficar para trás. A aquisição acelera a entrada da Microsoft no mercado de robôs com formato humano, uma frente considerada o próximo salto da inteligência artificial: máquinas que aprendem a interagir com o mundo físico.
O plano britânico responde diretamente a esse cenário de concentração. Ao criar datacenters soberanos, o Reino Unido quer garantir que dados estratégicos do país sejam processados em território nacional, sob suas leis, sem depender de servidores controlados por empresas americanas ou chinesas. É o equivalente digital a ter refinário próprio em vez de importar combustível: você pode até comprar a matéria-prima de fora, mas o processamento fica em casa. O país também quer reter talentos em vez de vê-los migrar para o Vale do Silício, fenômeno que já esvaziou polos de tecnologia na Europa.
O conjunto desses movimentos revela um padrão. A inteligência artificial está concentrando poder econômico e geopolítico num grupo cada vez menor de atores: dois países disputam a liderança (Estados Unidos e China), poucas empresas controlam a infraestrutura (NVIDIA, Microsoft, Google), e o resto do mundo corre para não ficar à margem. O Reino Unido é um dos primeiros a articular uma resposta系统性, mas não será o último. A União Europeia já discute regulação própria e países asiáticos aceleram investimentos nacionais.
Por que importa:
O Brasil importa praticamente todos os chips que usa, não tem datacenters soberanos em escala relevante e depende de sistemas de IA desenvolvidos no exterior. Cada avanço que concentra poder nas mãos de poucas empresas e países aumenta a dependência tecnológica brasileira e encarece o acesso à inovação. Quando a NVIDIA decide o preço de seus processadores ou a Microsoft muda os termos de uso de seus sistemas, o impacto chega a empresas brasileiras que precisam dessas ferramentas para competir. Sem uma estratégia própria de soberania digital, o país fica refém de decisões tomadas a milhares de quilômetros de distância.
