O Iêmen deu um passo raro de descompressão: rebeldes hutis e o governo assinaram uma trégua temporária e reabriram a fronteira entre os territórios que controlam, fechada havia cinco anos. O acordo alivia o quadro humanitário do país mais pobre da região, mas não resolve nada de fundo: os hutis seguem donos da capital, Sanaa, e a tensão com a vizinha Arábia Saudita continua no ar.
Os hutis são um grupo rebelde apoiado pelo Irã que controla o noroeste do Iêmen, incluindo Sanaa. A guerra civil começou quando os rebeldes tomaram a capital e um consorte internacional, liderado pelos sauditas, entrou no conflito para tentar expulsá-los. Não conseguiu. O resultado foi um país partido, com a fronteira fechada cortando o fluxo de mercadorias e pessoas entre zonas rivais.
A reabertura muda o dia a dia de gente comum. Com a fronteira funcionando de novo, ajuda humanitária pode circular entre as áreas em conflito, famílias separadas pela guerra têm chance de se reencontrar e o comércio local volta a respirar depois de cinco anos de bloqueio prático. Para um país que depende de ajuda externa para alimentar sua população, cada rota que reabre é oxigênio.
A mediação contou com o empenho de vizinhos como o Omã e da própria Arábia Saudita, que quer sair de um conflito caro e sem vitória à vista. A trégua, porém, é tática, não uma paz. Enquanto os hutis mantiverem Sanaa sob controle e seguirem armados, o acordo pode desmanchar a qualquer provocação. É uma pausa para recompor, não um tratado.
Os ataques hutis a navios no estreito de Bab el-Mandeb, a passagem entre o Iêmen e o Chifre da África que liga o mar Vermelho ao oceano Índico, transformaram uma das rotas de comércio mais movimentadas do planeta em zona de risco. Várias companhias marítimas passaram a desviar seus navios pela África, alongando viagens e encarecendo fretes. A trégua no Iêmen reduz a chance de novos ataques, mas não garante nada enquanto os rebeldes mantiverem capacidade de atingir embarcações.
Por que importa: o mar Vermelho é corredor de boa parte do comércio entre a Ásia e o Ocidente, e sobressalto ali encarece o frete que o Brasil paga. Quando o desvio pela África alonga a viagem, o custo chega ao consumidor: do smartphone importado ao trigo que abastece a padaria do bairro. Uma trégua que vingue ajuda a segurar esses preços; uma que estoure pode devolvê-los à alta.
