A Rússia abriu sua maior ofensiva militar em 18 meses na região de Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, e a resposta ocidental está correndo contra o relógio. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky pediu com urgência mais sistemas de defesa aérea, enquanto a OTAN, a aliança militar ocidental liderada pelos EUA, reforça o apoio ao país. No mesmo momento, dentro da própria União Europeia, a Polônia vive uma eleição presidencial polarizada em que agricultores exigem ação firme contra importações ucranianas, colocando em risco a coesão que sustenta o apoio a Kyiv.
A ofensiva em Kharkiv é o maior movimento russo no campo de batalha desde o fim de 2023. Depois de meses em que a frente de combate mal se mexeu, Moscou voltou a atacar em força, pressionando uma Ucrânia que já luta com escassez de munição e de armas antiaéreas. É exatamente essa lacuna que Zelensky quer ver preenchida: sem mísseis e baterias suficientes para deter os ataques aéreos, cidades ucranianas ficam expostas e o exército perde mobilidade para responder no solo.
O aperto militar se soma a um aperto político, e é aí que a história fica mais complicada para a Europa. A Polônia, um dos países mais firmes no apoio à Ucrânia desde o início da guerra em 2022, prepara-se para uma eleição presidencial em que o debate sobre a UE e a agricultura domina a campanha. Fazendeiros em manifestação por subsídios rurais pressionam o governo em Varsóvia e, por tabela, Bruxelas, exigindo barreiras contra a competição dos produtos agrícolas ucranianas, que entram no mercado europeu em grande volume.
O problema para Kyiv é que a Polônia não é um caso isolado. O descontentamento rural virou força política em vários países da UE, e cada crise com fazendeiros alimenta partidos que enxergam o apoio à Ucrânia como custo demais para a Europa. É uma ironia amarga da guerra: enquanto a Rússia testa a resistência militar ucraniana em Kharkiv, o teste da resistência política europeia acontece nas urnas e nas estradas bloqueadas por tratores.
As duas frentes se conectam num ponto sensível. Se a ofensiva russa avançar e a Europa se dividir por dentro, a posição negociadora da Ucrânia enfraquece nos dois tabuleiros ao mesmo tempo. A OTAN pode reforçar defesa aérea, mas a aliança depende da vontade política de seus membros, e essa vontade passa por eleições como a polonesa.
Por que importa: o Brasil acompanha de longe os campos de batalha, mas sente de perto as ondas dessa crise. Guerra mais intensa pressiona o preço de commodities como trigo, milho e energia, o que pode engordar a inflação de comida no prato do brasileiro. Além disso, se a União Europeia se fechar para produtos ucranianos, sobra mais produto agrícola circulando no mercado global, concorrendo com as exportações do agronegócio brasileiro. Paz ou guerra no leste europeu chega, sim, ao bolso por aqui.
