A China anunciou um pacote de estímulo de 1 trilhão de yuais (cerca de 140 bilhões de dólares) voltado para o consumo doméstico e o setor imobiliário, numa tentativa de frear a desaceleração industrial que assombra a segunda maior economia do mundo. A medida chega num momento crítico: enquanto Pequim tenta reanimar sua economia interna, uma onda de calor recorde varreu o sudeste asiático e ameaça destruir colheitas, empurrando os preços de alimentos para cima globalmente.
O cenário é este: a China cresceu menos do que esperado no último trimestre, e o desemprego entre jovens disparou. O governo, sob pressão, recorreu ao kit clássico de estímulo, injetar dinheiro no consumo e descongelar o mercado imobiliário, que está travado desde o colapso da Evergrande em 2021. Mas há um problema: esse trilhão de yuais tenta resolver um problema doméstico enquanto o exterior fica cada vez mais instável.
A onda de calor no sudeste asiático não é um detalhe climático menor. Vietnã, Tailândia e Bangladesh enfrentam temperaturas recordes e secas severas que afetam diretamente a produção agrícola regional. Conforme avança a estação seca, os riscos de blecautes crescem, já que a geração hidrelétrica cai quando os rios e reservatórios secam. Planos de emergência já estão em discussão entre os governos locais.
A conexão entre esses dois fatos é simples mas consequente: quando a China estimula seu próprio consumo, ela compra mais commodities no mercado global, grãos, óleo de soja, minério. Ao mesmo tempo, a onda de calor reduz a oferta de alimentos justamente no sudeste asiático, um dos celeiros do mundo. Menos oferta, mais demanda chinesa: o preço sobe. A receita é conhecida, e dolorida para quem compra alimento no supermercado.
Há também o risco de curto prazo: se os blecautes se multiplicarem no sudeste asiático, fábricas (muitas delas produzindo para o mundo, inclusive para marcas ocidentais) podem parar. A globalização adora eficiência, e a eficiência quebra rápido diante de um apagão. Isso poderia desacelerar ainda mais a demanda global por produtos manufaturados, exatamente o cenário que Pequim teme.
Por que importa: O Brasil vende soja e minério para a China em grandes volumes. Se o estímulo chinês funcionar, a demanda por essas commodities sobe e os preços sobem, ótimo para o agronegócio brasileiro. Mas se a onda de calor no sudeste asiático desorganizar as cadeias globais de alimentos, o preço do que o Brasil importa (adubos, fertilizantes, energia) pode subir também. E quando sobe o preço do alimento lá fora, sobe aqui dentro: seu prato fica mais caro.
