Os Estados Unidos apertaram o cerco a China com novas restrições à exportação de chips avançados, e o Japão respondeu com um pacote bilionário para construir sua própria indústria de semicondutores. Não é coincidência: os dois movimentos revelam a mesma disputa, quem controla a tecnologia que roda o mundo controla a geopolítica dos próximos 20 anos.
A Casa Branca anunciou novas barreiras para impedir que processadores de ponta cheguem ao mercado chinês, aprofundando uma guerra comercial que já dura anos. Washington vê risco demais em deixar China forte em inteligência artificial e computação de alta performance. Tóquio, porém, assistiu de longe e tirou uma lição amarga: não pode confiar que os EUA deixarão semicondutores fluírem sem restrições, mesmo para aliados. Se Washington muda as regras com Pequim, pode mudar com Tóquio também.
Por isso o Japão anunciou bilhões em subsídios para expandir e modernizar fábricas domésticas de chips. Não é investimento convencional em produtividade. É apólice de seguro geopolítica. Tóquio quer garantir que, se o fornecimento de componentes americanos secar, sua economia não desaba. A mesma lógica vai empurrar Europa, Taiwan e Coreia do Sul, todos querem ter pelo menos parte da cadeia em casa, custa o que custar.
O paradoxo é duro: quanto mais os EUA restringem fluxos comerciais em nome da segurança, mais aliados investem em autossuficiência, fragmentando a cadeia global de semicondutores que levou décadas para se formar. Taiwan continua sendo o hub, mas o mundo todo quer sua própria fábrica. Isso significa duplicação de custos, pesquisa menos eficiente e, ironicamente, tecnologia menos avançada, exatamente o oposto do que a economia global ganha com especialização.
A escassez de minerais raros que alimentam essa produção adiciona outra camada: a China controla reciclagem e processamento de terras-raras. Agora, mineradores em outros continentes correm contra o tempo para abrir novas minas e desenvolver tecnologias de reciclagem. Cada país quer sua própria corrente de suprimentos, e a indústria de semicondutores está virando um quebra-cabeça de fragmentação.
Por que importa: O Brasil está longe dessa guerra, mas paga pelo caos. Quando a cadeia global de chips fica cara e fragmentada, computadores, smartphones, eletrodomésticos e carros ficam mais caros para o consumidor brasileiro. Além disso, se o Brasil quiser desenvolver sua própria indústria de tecnologia (coisa que o país discute há anos, sem sair do papel), terá de fazer na contramão de um mercado cada vez mais protecionista. E se Tóquio tem dinheiro para subsidiar fábricas, o Brasil provavelmente não.