A Organização das Nações Unidas reuniu diplomatas em Genebra esta semana para tentar criar um tratado global que governe o uso de inteligência artificial em operações militares e eleições. O problema é que, enquanto a ONU negocia, a tecnologia já disparou, e os grandes países não conseguem concordar em regras comuns.
O cenário é este: deepfakes conseguem agora simular vozes e rostos de líderes políticos com precisão assustadora. Ataques hackers usam IA generativa para fabricar mensagens que enganam funcionários de bancos e governos. Armas autônomas capazes de decidir atacar sem humanos no comando estão cada vez mais perto. A ONU sabe que o problema cresce todos os dias, mas a adesão das grandes potências ao eventual tratado promete ser parcial, e isso esvazia qualquer acordo desde o início.
Não é a primeira vez que diplomacia multilateral se vê acuada pela velocidade da inovação. Há décadas, tratados sobre armas nucleares, biológicas e químicas conseguiram criar consenso justamente porque eram tecnologias pesadas, visíveis, de fabricação custosa. IA é invisível, viral, barata. Um pequeno banco atacado por ransomware com IA não consegue nem identificar de onde veio o golpe. Um eleitoral numa democracia frágil recebe vídeos deepfake de um candidato no WhatsApp e nunca confirma a autenticidade. O dano acontece em tempo real, muito antes de qualquer tribunal internacional se pronunciar.
A indústria de detecção de conteúdo sintético e watermarking já cresce em resposta à ameaça. Bancos e agências eleitorais correm para blindar seus sistemas. Mas é uma corrida armamentista privada: cada instituição se defende sozinha enquanto aguarda regras que talvez nunca cheguem. Enquanto isso, os hackers aprendem mais rápido.
Países como China, Rússia e Estados Unidos têm incentivos conflitantes em qualquer acordo. Armas autônomas e deepfakes são ferramentas poderosas para qualquer potência. Pedir que renunciem a elas é como pedir que um país abandone um arsenal nuclear, teoricamente sensato, praticamente impossível. Cada uma quer preservar a capacidade ofensiva enquanto limita a do adversário. Genebra conhece bem este impasse.
Por que importa: o Brasil não é potência em IA militar, mas é alvo. Nossas eleições enfrentam já uma onda crescente de desinformação, e deepfakes podem amplificar o caos em 2026. Bancos brasileiros estão na mira de ataques ransomware sofisticados. Sem regras globais que efetivamente funcionem, a tecnologia vai continuar correndo, e instituições brasileiras tomarão os golpes enquanto a ONU segue negociando em Genebra.
