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Gaza respira, Sudão desaba: por que a comunidade internacional só freia uma guerra

ORIENTE MÉDIO
Gaza respira, Sudão desaba: por que a comunidade internacional só freia uma guerra

O cessar-fogo em Gaza entrou na terceira semana de vigência após as negociações mais recentes, oferecendo o primeiro alívio duradouro desde 2023. No mesmo momento, o Sudão enfrenta o colapso humanitário mais grave da região: 10 milhões de pessoas foram deslocadas pela guerra entre o Exército e as Forças de Apoio Rápido. A contradição é brutal. Enquanto diplomatas comemoram uma trégua no Oriente Médio, outras 10 milhões de vidas entram em fuga no Vale do Nilo.

O contraste revela uma verdade desconfortável sobre a política internacional: a comunidade global consegue construir pressão diplomática suficiente para uma pausa em Gaza, mas segue impotente diante da crise sudanesa. A diferença não é moral, mas de poder. Gaza tem Israel, Hamas, Catar e Egito na mesa; todos com interesse direto em negociar. O Sudão tem fações militares rivais sem apoio internacional significativo para fazê-las sentar à mesa. Nenhuma potência global aposta político ou militarmente o suficiente naquela guerra para frear.

O cessar-fogo de Gaza resistiu a três rodadas de negociações porque os atores envolvidos compartilhavam ganhos imediatos: Israel reduz pressão internacional, Hamas resiste como ator político, Catar e Egito fortalecem seu papel como mediadores. No Sudão, a lógica é oposta. Os dois lados preferem a guerra à negociação porque a negociação significaria dividir poder num Estado quebrado. Sem incentivo para parar, ambos seguem lutando por território e recursos.

Os números do Sudão são simplesmente maiores que os de Gaza. O país tem 46 milhões de habitantes; os 10 milhões de deslocados representam mais de um quinto da população. Fome extrema já atinge milhões. A guerra começou em abril de 2023, quase um ano antes dos enfrentamentos em Gaza, e segue sem data de término porque ninguém de fora investe poder de barganha real para pará-la. As Nações Unidas monitoram, ONG internacionais apelam, mas o sistema de segurança global não tem ferramenta que funcione para guerras civis onde as partes não querem parar.

A lição incômoda é esta: o mundo consegue fazer cessar-fogo quando as potências concordam que é vantajoso. Consegue congelar conflitos pela diplomacia quando há atores com poder de pressão e interesse em negociar. Mas guerras de atrito puro, onde não há lucro diplomático em intervir e os beligerantes acreditam que podem vencer, seguem invisíveis e sem solução. Gaza ganhou holofote. O Sudão paga o preço do esquecimento.

Por que importa: O Sudão é produtor de ouro, gado e recursos estratégicos que alimentam comércio regional e global. A desestabilização prolongada impacta preços de commodities e commodities agrícolas que chegam aos mercados brasileiros, pressionando inflação em setores como alimentos. Além disso, governos como o do Brasil que votam em organismos multilaterais (Conselho de Segurança via cadeira eventual, Assembleia Geral da ONU) enfrentam crescente pressão para justificar por que uma crise humanitária de 10 milhões de pessoas vale menos atenção que outras. O silêncio diplomático sobre o Sudão enfraquece as mesmas normas que deveriam proteger qualquer população em guerra, incluindo brasileiros em crises futuras.

Fontes

  • Alto-fogo em Gaza resiste à terceira semana · BBC News
  • Sudão: crise humanitária se agrava com 10 milhões de deslocados · AP News