Japão e Coreia do Sul selaram nesta semana um acordo histórico de fusão tecnológica que cria um gigante de defesa avaliado em US$ 120 bilhões, enquanto na Alemanha a extrema-direita consolida sua força nas eleições locais e desfaz a tradicional coalizão de governo. Os dois movimentos revelam o mesmo fenômeno: potências médias globais perdendo confiança na arquitetura de alianças do pós-Guerra Fria e correndo para blocos menores, mais ágeis, porém mais incertos.
O acordo entre Tóquio e Seul é inédito. Os dois países, historicamente rivais por questões territoriais e de memória colonial, estão colocando lado a lado suas indústrias de defesa, semicondutores e inteligência artificial. A fusão não é meramente comercial: é uma resposta direta à pressão chinesa na região e ao receio de que os Estados Unidos, sob uma possível administração Trump, reduzam seu compromisso com a segurança asiática. "Vamos nos defender sozinhos se preciso", é o recado implícito. Os US$ 120 bilhões em ativos e receita anual refletem a escala do apego mútuo.
Na Alemanha, o cenário é o oposto em forma, idêntico em essência. O Partido Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita, cresceu significativamente nas eleições locais e minou o modelo de coalizões amplas que sustentou a política alemã por décadas. A tradicional "grande coligação" (União Democrática Cristã + Partido Social-Democrata) perde espaço. Governos regionais agora precisam de arranjos mais criativos e instáveis, com parceiros menores e ideologicamente distantes. A fragmentação politiza a alocação de poder.
O padrão global é claro: alianças tradicionais entram em crise porque países médios não confiam mais que as superpotências cuidarão de seus interesses. Japão e Coreia do Sul apostam em autonomia defensiva. Eleitores alemães punem o establishment e apostam em outsiders. Ambas as movidas reduzem a previsibilidade das relações internacionais.
Esses blocos menores tendem a ser mais frágeis. Uma coalizão entre dois países asiáticos é vulnerável a mudanças de liderança ou pressão externa. Governos regionais alemães com parceiros instáveis legislam com dificuldade. Mas essa fragilidade é justamente o ponto: é mais barato e rápido sair de um bloco pequeno do que de uma grande aliança. O mundo se torna mais pulverizado e reativo.
Por que importa: O Brasil depende tanto da estabilidade nos mercados de tecnologia (importamos componentes asiáticos) quanto da continuidade das normas comerciais multilaterais que a Alemanha ajuda a sustentar na Europa. Se Tóquio e Seul se fecham em um bloco defensivo asiático, componentes para eletrônicos e automóveis ficam mais caros ou restritos. Se a Alemanha enfraquece internamente, a União Europeia perde coesão, impactando as negociações comerciais que afetam exportações brasileiras de commodities. Além disso, um mundo de alianças frágeis significa menos previsibilidade para empresas brasileiras que operam globalmente.
