A OPEP+, grupo de países produtores de petróleo liderado por Arábia Saudita e Rússia, decidiu congelar seus planos de aumentar a produção. A razão é simples e preocupante: a China, maior consumidora de petróleo do mundo, está comprando menos. Com medo de inundar o mercado e derrubar os preços, os produtores preferiram segurar a oferta. No mesmo dia em que essa notícia saiu, a agência climática americana NOAA confirmou que 2024 foi o ano mais quente já registrado na história, e janeiro de 2025 chegou 1,75°C acima da temperatura pré-industrial média. O contraste é gritante: enquanto o planeta aquece, a indústria do petróleo freia.
A redução da demanda chinesa é real e estrutural. A economia do país desacelerou, a indústria manufatureira enfraqueceu e até o setor de transportes trocou gasolina por eletricidade mais rapidamente que o esperado. A OPEP+ reagiu como qualquer cartel reagiria: tentando manter o preço alto cortando oferta. Esse jogo, porém, funciona só enquanto há compradores dispostos a pagar mais. Se a recessão se aprofunda na China ou vaza para outras economias, nem cortar produção vai salvaguardar as margens.
O paradoxo aqui não é apenas econômico, é físico. Enquanto os produtores controlam os barris que extraem do solo, o clima não negocia. O calor recorde de 2024 foi alimentado por emissões de dióxido de carbono que vieram, em grande medida, da queima de combustíveis fósseis. Quanto mais tempo a demanda por petróleo se sustenta (mesmo que apertada), mais longo o período em que o carbono continua sendo liberado na atmosfera. A OPEP+ está apostando que consegue vender petróleo a preços altos por mais alguns anos. O sistema climático diz que esse tempo está acabando.
Os preços, por enquanto, reagem à notícia do congelamento com estabilidade relativa, nem disparam nem desabam. Mas a lógica que sustenta esse equilíbrio é frágil. Se a China não se recuperar, se a economia global entrar em contração ou se a transição para energias renováveis acelerar (como vários governos prometem), o mercado de petróleo enfrenta uma escolha: preços caem drasticamente ou a indústria encolhe de verdade. A OPEP+ sabe disso. Por isso adia aumentos. Mas adiar não é resolver.
Por que importa: Para o Brasil, petróleo mais barato é uma faca de dois gumes. A Petrobras arrecada menos em impostos e dividendos, afetando a receita do governo federal. Por outro lado, combustível mais barato na bomba alivia o bolso do brasileiro comum e pode pressionar a inflação para baixo (dependendo da taxa de câmbio). O risco real é se a queda persistir: desestimula investimento em exploração no pré-sal e em refinarias, enfraquecendo a indústria a longo prazo. Além disso, quanto mais o petróleo continua barato, mais a transição energética global se arrasta, e mais o Brasil fica preso à economia do carbono quando deveria correr para diversificar.
