O Japão está voltando aos negócios de semicondutores em grande escala. Uma fábrica em Kumamoto, cidade no sul do país, acaba de entrar em operação e marca o retorno do Japão à disputa global por quem controla a produção de chips. O movimento é parte de uma corrida estatal: governos ao redor do mundo tratam semicondutores como ativo estratégico, tão crítico quanto armas nucleares ou reservas de petróleo.
Durante décadas, o Japão foi rei nesse mercado. Empresas como Sony e Toshiba dominavam. Depois perderam terreno para Taiwan (que tem a TSMC, a maior fabricante de chips do mundo) e a Coreia do Sul (dona da Samsung). Agora, com tensões crescentes entre Washington e Pequim, o Japão viu uma oportunidade: investir pesado em fábricas próprias para reduzir a dependência de Taiwan e, indiretamente, da China. É a lógica das tarifas e sanções que moldaram o comércio global nos últimos anos transferida para o setor mais crítico da tecnologia.
A fábrica de Kumamoto vai produzir chips para carros e centros de dados. Não são os chips mais sofisticados do planeta (esses continuam sendo monopólio de Taiwan), mas são essenciais. Os gargalos na cadeia de carros inteligentes e servidores para inteligência artificial nos últimos anos mostraram a fragilidade dessa dependência. Uma única crise em Taiwan ou uma decisão chinesa de bloquear exportações mexeria com a economia global inteira.
O Japão não está sozinho nessa aposta. Os Estados Unidos estão subsidiando fábricas de chips em solo americano. A União Europeia também quer suas próprias linhas de produção. Cada governo olha para o mesmo espelho: quem controlar os chips controla o futuro. Não é conspiração. É geopolítica.
A operação em Kumamoto sinaliza que o Japão está levando a sério essa competição. Empresas locais como a Sony estão envolvidas no projeto. O sinal é claro para investidores e aliados: o Japão está de volta, e dessa vez com dinheiro público garantindo o jogo.
Por que importa: Chips mais caros em Taiwan ou bloqueados por decisões políticas chinesas significam produtos eletrônicos mais caros aqui no Brasil. Celulares, eletrodomésticos, carros. Se o Japão conseguir diversificar a produção global de semicondutores, a pressão sobre preços diminui. Além disso, o Brasil importa tecnologia de ponta que depende completamente dessa cadeia. Uma fábrica funcionando fora de Taiwan e da China reduz o risco de que decisões geopolíticas lá afunem o setor tecnológico por aqui.