Donald Trump e Vladimir Putin se encontram na Turquia para discutir um possível cessar-fogo na Ucrânia. O encontro marca a primeira negociação direta entre Washington e Moscou sobre o conflito desde a invasão russa em fevereiro de 2022. Mas há um problema: Volodymyr Zelensky exige que representantes europeus participem das conversas, temendo que um acordo costurado apenas entre americanos e russos ignore os interesses da Ucrânia.
O encontro em Ancara expõe uma disputa sobre quem controla o processo de paz. De um lado, Trump busca encerrар rapidamente o conflito, vendo a negociação direta com Putin como a via mais ágil. Do outro, Zelensky e aliados europeus temem ser deixados de fora de decisões que definem o futuro territorial e de segurança da Ucrânia. A tensão reflete uma pergunta sem resposta clara: quem tem legitimidade para negociar pelo fim de uma guerra?
A Ucrânia já perdeu cerca de 20% do seu território para a ocupação russa nos últimos três anos. Zelensky declarou publicamente que "não aceitará um acordo costurado pelas costas da Ucrânia", em coletiva de imprensa em Kyiv. Essa posição coloca a Ucrânia numa encruzilhada: depende de armas e apoio americano, mas recusa ser excluída das negociações que determinam seu futuro. Os europeus, particularmente Polônia e os países bálticos, compartilham o receio de que Washington e Moscou façam concessões que comprometam a segurança no leste europeu.
Trump apresenta a negociação direta como pragmatismo: conversar com quem tem poder de decisão reduz burocracia e acelera acordos. A lógica é econômica e geopolítica: quanto mais rápido termina a guerra, mais cedo os mercados de petróleo e gás estabilizam, e menos recursos os EUA precisam destinar ao conflito. Putin, por sua vez, ganha ao negociar diretamente com Washington, contornando a União Europeia e enfraquecendo a coesão ocidental.
A questão agora é se Trump conseguirá convencer Zelensky a aceitar termos saídos dessa cúpula bilateral. Uma saída rápida pode significar congelamento do conflito com perdas territoriais russas consolidadas, cenário inaceitável para Kyiv. Os europeus, especialmente Alemanha e Reino Unido, já sinalizaram que qualquer acordo deve ter participação europeia, para garantir que a segurança do continente não seja negociada entre dois gigantes distantes.
Por que importa: A Ucrânia é responsável por cerca de 12% da produção global de trigo e 50% da oferta de fertilizantes. Uma paz rápida destravar esses suprimentos e pressionar preços de alimentos para baixo, reduzindo a inflação que atinge o agro e o supermercado brasileiros. Além disso, a queda do preço do petróleo, se a negociação prosseguir, reverberaria nos postos de gasolina do Brasil em semanas. Mas uma paz frágil, sem europeus na mesa, pode gerar nova instabilidade em meses, devolvendo a volatilidade dos preços de energia e alimentos ao patamar anterior, afetando diretamente o bolso do brasileiro.
