A cúpula climática de Baku fechou acordo para liberar US$ 300 bilhões em financiamento para transição energética nos próximos anos, o maior pacote já negociado. O problema: as metas de redução de carvão foram enfraquecidas na versão final do texto, refletindo a resistência de países dependentes de combustíveis fósseis. Enquanto diplomatas celebram o dinheiro, a realidade do clima extremo já não espera por negociação.
No Chifre da África, a situação é urgente. Secas e chuvas fora de época destruíram colheitas inteiras. As projeções de safra global para este ano ficaram cerca de 2% abaixo do esperado, um rombo que parece pequeno nos papéis, mas que no prato das famílias mais pobres significa fome real. Empresas de tecnologia agrícola estão desesperadas tentando salvar o que é possível, mas a máquina climática se move mais rápido que o dinheiro prometido.
O paradoxo é simples: há recurso para investir em energia limpa, mas não há coragem política para desmontar a dependência do carvão. Os países ricos aceitaram colocar US$ 300 bilhões na mesa para agradar os europeus e ambientalistas. Mas países como China, Índia e Indonésia, pilares da economia fóssil, arrancaram da redação final qualquer linguagem que obrigasse a "eliminação gradual" do carvão. O termo mais fraco, "transição de baixa emissão", entrou no seu lugar. É a diferença entre mandar alguém ao médico e apenas torcer para que o problema desapareça.
Isso acontece porque o carvão ainda alimenta a corrente elétrica de bilhões de pessoas e gera empregos em regiões inteiras. Pedir que esses países saiam do carvão sem dinheiro de verdade é pedir o impossível. Com US$ 300 bilhões, talvez fosse possível. Mas se o dinheiro não vem com exigências reais de descarbonização, vai virar investimento morno em projetos que mantêm a mesma estrutura de antes.
Enquanto isso, a fome no Chifre da África não aguarda a próxima cúpula. Crianças desnutridas na Somália, Etiópia e Quênia não sabem que há US$ 300 bilhões sendo negociados. Elas sabem que a chuva que deveria cair não caiu, que a safra que deveria vir não veio, e que o preço do alimento que chegou ao mercado explodiu. Esse é o verdadeiro custo do recuo nas metas de carvão: não aparece nos comunicados de imprensa, só no sofrimento de quem depende de cada grama de milho produzida.
Por que importa: O Brasil sai ganhando com o financiamento climático, já que é receptor de fundos para proteção da Floresta Amazônica e projetos de energia renovável. Mas perde quando a ambição global enfraquece: a instabilidade climática que derruba safras na África impacta preços de alimentos no mercado internacional, pressionando a inflação que o brasileiro sente no supermercado. E o recuo nas metas de carvão significa que a transição energética global vai demorar mais, mantendo pressionados os preços de energia por mais tempo.
