O cessar-fogo entre Israel e Hamas completou sua terceira semana nesta segunda-feira mantendo-se em pé, contra as apostas de que colapsaria em dias. A trégua não nasceu de reconciliação ou confiança entre as partes, mas de pressão internacional intensa e da abertura parcial de rotas humanitárias em Rafah, a única cidade de Gaza com saída direta para o Egito. Cada dia sem colapso mantém viva a porta para um acordo permanente que EUA, Catar e Egito tentam transformar em realidade.
A ajuda humanitária que entra em Rafah cobre ainda apenas metade do necessário para evitar uma crise alimentar irreversível. Antes do conflito, Gaza recebia cerca de 500 caminhões de ajuda por dia; hoje, cerca de 200 a 250 passam pela passagem de Rafah. Os médicos sem fronteiras relatam filas enormes de feridos sem atendimento adequado, e a desnutrição infantil acelerou desde que a trégua começou. Mas sem essa reabertura, nem isso seria possível.
O risco permanece estrutural. Hamas e Israel continuam distantes em questões fundamentais: o retorno permanente das tropas israelenses ao território, o desarmamento do movimento palestino e as reparações pelos danos. A delegação israelense e a palestina negociam em mesas separadas, com mediadores passando mensagens de um lado para outro. Um desentendimento mal traduzido ou uma provocação de grupos dissidentes pode reacender confrontos em horas.
No Líbano, o cenário é ainda mais volátil. O Hezbollah, milícia apoiada pelo Irã, segue à margem do acordo de Gaza e mantém disparos ocasionais contra o norte de Israel. A comunidade internacional teme que qualquer escalada no front libanês quebre o frágil equilíbrio que sustenta a trégua palestina. Egito e Catar, os dois principais mediadores, trabalham simultaneamente em conversas paralelas para evitar que a pressão se espalhe.
A pressão diplomática que mantém o cessar-fogo de pé vem também do constrangimento público. EUA, Europa e atores regionais enfatizam o custo político e humanitário de um retorno à guerra total em Gaza. Israel enfrenta pressão interna de famílias de reféns capturados pelo Hamas, que pedem negociação em vez de escalada. Hamas, por sua vez, sabe que uma volta aos combates isolaria a causa palestina ainda mais no cenário internacional.
O próximo teste chega em dias: a negociação sobre a segunda fase da trégua. Israel defende a condição de retomar operações se Hamas não concordar com termos finais; Hamas quer garantias de que o cessar-fogo é permanente. Sem essa clareza, a terceira semana pode ser a última.
Por que importa: O Brasil acompanha essa crise de perto porque Israel é um dos maiores fornecedores de tecnologia de defesa para a América Latina e um parceiro comercial relevante. Uma escalada em Gaza afeta os preços do petróleo no mercado global e, por tabela, o custo da gasolina na bomba brasileira. Além disso, o país tem uma população palestina e judaica significativas, e tanto a diplomacia quanto o resultado dessa negociação impactam o discurso político doméstico sobre direitos humanos e política externa que o Brasil adota em fóruns internacionais como a ONU.
