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Europa se reorganiza sozinha enquanto Washington se afasta

GEOPOLÍTICA
Europa se reorganiza sozinha enquanto Washington se afasta

Friedrich Merz assumirá a chancela da Alemanha e o Banco Central Europeu cortou juros para 2,5% esta semana. Dois movimentos aparentemente desconexos que revelam a mesma ansiedade europeia: a necessidade urgente de tomar decisões sem poder contar com a segurança que Washington oferecia.

A Alemanha elegeu Merz e sua União Democrática Cristã (CDU) em eleições legislativas que reposicionam o país à direita da liderança de Angela Merkel. A extremista Alternativa para a Alemanha (AfD) avançou forte em segundo lugar, acirrado o debate sobre imigração e identidade. Merz terá de montar uma coalizão frágil enquanto enfrenta dilemas que não existiam há quatro anos: aumentar gastos militares significativamente (as Forças Armadas alemãs estão subfinanciadas) sem conseguir acordo político interno, tudo isso enquanto a economia estagnou. Simultaneamente, o BCE sinalizou que há espaço para mais cortes de juros ao longo de 2025, flexibilizando a política monetária num sinal de que a Europa sente o aperto econômico.

Essa simultaneidade não é coincidência. Merz herda uma Alemanha que precisa se repensar como potência militar e ao mesmo tempo enfrenta economicamente um concorrente chinês mais agressivo e mercados menos previsíveis pós-Trump. O BCE, por sua vez, sente o mesmo vento: com a economia europeia fraca (inflação sob controle, mas crescimento morno), cortar juros é tentar estimular demanda interna. A Europa não pode contar com demanda americana como antes, esse é o pano de fundo invisível.

A vitória de Merz, porém, complica a resposta alemã. A CDU é mais atlantista que a coalizão anterior de Scholz, mas também mais conservadora em gastos. Montar coalização em Berlim foi sempre frágil; agora, com a AfD forte e a extrema-esquerda também crescente, as opções de Merz são limitadas. Ao mesmo tempo, não há saída: a Alemanha é a locomotiva da União Europeia. Se tropeçar, a Europa toda sente.

O corte de juros do BCE reflete a mesma pressão: com os EUA potencialmente retraindo-se de seus compromissos de segurança e comércio (a questão do Mercado Transatlântico está em discussão), a Europa precisa de estímulo doméstico. Mas estímulo sem consenso político é arriscado. Merz pode querer austeridade em Berlim enquanto Bruxelas pede flexibilidade; bancos centrais não podem resolver essa tensão sozinhos.

O recado europeu é claro: organizem-se ou sufoquem. Defesa, economia, política externa, tudo precisa ser repensado como projeto europeu autossuficiente, não mais como apêndice atlantista. Merz representa essa guinada. O BCE oferece ferramentas, mas elas têm limites.

Por que importa: Brasil sente essas mudanças em duas vias. Primeiro, a Europa em reorganização busca novos parceiros comerciais (commodities, energia renovável) e parceiros geopolíticos estáveis fora do eixo EUA-China. Um Merz mais assertivo pode abrir oportunidades diplomáticas para o Brasil, que historicamente fica invisível nesses debates. Segundo, uma Europa com juros mais baixos torna os dólares mais atraentes, pressionando o real, exatamente quando o Brasil já enfrenta inflação persistente e pressões nas contas externas. Se a economia europeia continuar morna, o Brasil perde espaço para exportações e sofre com o câmbio desfavorável.

Fontes