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BRICS quer moeda própria para escapar do dólar: o que muda para o Brasil

GEOPOLÍTICA
BRICS quer moeda própria para escapar do dólar: o que muda para o Brasil

O BRICS está buscando criar mecanismos de pagamento alternativos ao dólar. A discussão ganhou força nas últimas cúpulas do bloco, que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Enquanto isso, na frente climática, países pressionam por metas mais ambiciosas de redução de emissões. Essas duas batalhas não são desconectadas: quem conseguir depender menos do dólar e do petróleo ganha espaço político para definir suas próprias prioridades de desenvolvimento, incluindo o ritmo da transição energética.

A ideia de desdolarização (reduzir o uso do dólar nas transações internacionais) não é nova, mas ganhou tração real. O BRICS explora formas de os membros comerciarem entre si em moedas locais em vez de usar o dólar como intermediário. China e Rússia já fazem comércio direto em yuan e rublo há anos, especialmente desde as sanções ocidentais a Moscou. Agora o bloco quer ampliar isso: se Brasil, Índia e África do Sul trocarem mais entre si sem passar pelo dólar, reduzem custos e, mais importante, ganham autonomia frente às flutuações da moeda americana e às pressões políticas dos EUA.

Ao mesmo tempo, a transição energética acelera. Investimentos globais em energia renovável bateram recorde em 2023, segundo relatório da Agência Internacional de Energia (AIE). Mas o ritmo não é suficiente. A AIE alertou que, para limitar o aquecimento global, seria preciso triplicar a capacidade de energias limpas até 2030. Isso cria tensão: países ricos querem que o Sul Global (conjunto de países em desenvolvimento, onde está o Brasil) abandone petróleo mais rápido. Mas se o Brasil, produtor de petróleo, precisar depender do dólar para financiar sua economia, fica preso ao sistema atual. Se conseguir financiamento em moedas alternativas e comércio mais diverso, tem mais liberdade para negociar seu próprio calendário de transição.

Essa dinâmica explica a pressão simultânea por desdolarização e por metas climáticas mais duras no BRICS. A China e a Índia, que votam juntas nessas reuniões, têm interesses claros: a China quer amplificar o yuan globalmente; a Índia quer proteger seu setor energético. Brasil, maior democracia do bloco, fica no meio, querendo reduzir emissões (com a agenda Lula) mas também mantendo espaço para suas próprias escolhas econômicas.

Construir um sistema financeiro paralelo demanda décadas. Mas os primeiros passos já acontecem: liquidação de transações em moedas locais, acordos bilaterais de crédito, e até discussões sobre uma moeda de cesta (tipo um "dólar BRICS"). A transição não será rápida, mas sinais de que o mundo está se realinhando são visíveis.

Por que importa: O Brasil depende de dólares para importar petróleo, máquinas e alimentos. Se conseguir pagar mais em reais para China e Índia, economiza dólares que podem ser usados em outras compras. No curto prazo, qualquer "desdolarização" faria o real flutuar menos, reduzindo pressão no dólar interno e, potencialmente, na inflação. No longo prazo, se o BRICS conseguir criar alternativas ao dólar, o Brasil ganha poder de negociação: menos submissão às políticas monetárias dos EUA, mais espaço para sua própria agenda de transição energética sem ditames externos.

Fontes

  • BRICS discute expansão de mecanismos de pagamento próprio · Reuters
  • Cúpula climática antecipa metas mais duras para emissões · The Guardian